Passeio em avião da Força Aérea sobrevoou Arrábida, Tróia e o Tejo. Para uma das meninas participantes foi “a melhor experiência” que já viveu.
A Abrigo, Associação Portuguesa de Apoio à Criança, que tem sede no Montijo, ofereceu uma experiência de baptismo de voo a 20 famílias e 30 crianças e jovens, aproveitando as comemorações dos 66 anos da Base Aérea N.º 6, do Montijo.
As crianças e restantes passageiros voaram num avião C-295M da Força Aérea Portuguesa (FAP), operado pelo piloto capitão Diogo Duarte, co-piloto tenente Gheorghe Mudric e por mais quatro militares, nomeadamente os operadores de cabine primeiros sargentos Hugo Coelho e Marco Aires e pelo segundo sargento Simão Reis.
O passeio, com a duração de cerca de 25 minutos, passou pela Serra da Arrábida, Tróia, Palmela, Costa, Rio Tejo, concelho Moita e concelho Montijo, oferecendo imagens aéreas que encantaram os participantes.
Tantos os miúdos como os graúdos adoraram a oportunidade, dizendo que fica gravada nas suas memórias positivas e algumas pediram para repetir a experiência.
“Vou escrever esta viagem no meu diário, vai ser a primeira coisa que escrevo porque foi o melhor que me aconteceu até hoje! Foi a melhor experiência da minha vida!”, disse uma menina de 10 anos, que nunca tinha andado de avião e que participou sem a família, acompanhada apenas pela equipa militar. Ao inicio sentiu-se indisposta mas no final estava maravilhada.
Para vários participantes foi a primeira vez que andaram de avião, para os outros foi também uma experiência nova porque andar num avião militar tem “mais adrenalina” do que viajar num avião civil.
Longe vai o tempo da figura parental autoritária. Pais e filhos estão cada vez mais próximos, mas nem sempre as fronteiras estão bem definidas. O que acontece quando o amigo vem primeiro do que o pai?
“Na minha opinião, ser mãe não se deve confundir com ser amiga. Enquanto mãe, é preciso criarmos regras e mostrar que estamos presentes quando elas quiserem falar de problemas.” Teresa Tavares, engenheira de produção, vive com as duas filhas adolescentes, de 13 e 14 anos, em Santa Maria da Feira. E insiste no seu ponto de vista sobre as relações entre mães e filhas: “Não nos podemos confundir com as melhores amigas”.
Cassandra*, da Figueira da Foz, tem uma opinião um pouco diferente. Diz ser amiga e mãe, uma pessoa a quem as filhas, também elas adolescentes, acabam por contar tudo. É uma questão de acompanhamento e de confiança. Já Paulo, pai de Maria, de 17 anos, confessa que lhe faz confusão “quando os pais tentam ser os melhores amigos”.
O debate sobre até que ponto os pais devem ser amigos dos filhos não é novo, mas está cada vez mais atual. Basta olhar para a geração dos avós para perceber que a relação que estes tinham com os filhos era muito diferente da que existe hoje em dia dos seus filhos com os seus netos. Nem de propósito, a historiadora Stephanie Coontz chegou a contar ao The Cut que a ideia de pais e filhos amigos é relativamente nova e surgiu no contexto de “práticas mais democráticas para educar as crianças”, no século passado. “Hoje em dia, os pais querem muito que os seus filhos sejam indivíduos”, diz. Embora tentem incutir os seus valores, existe uma diferença face ao passado, quando os pais acreditavam que o melhor (e o mais seguro) era os filhos obedecerem e seguir as suas pisadas.
“Os amigos são escolhidos, os pais não. Os pais têm uma relação assimétrica com os filhos, que implica muito respeito.”
Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica
Em 2015, a socióloga Sofia Aboim falava ao Observador sobre a “erosão do modelo de distanciamento geracional” — em vez do pai patriarca, associado a uma figura mais rígida de outros tempos, atualmente existe entre pais e filhos maior companheirismo, necessidade de comunicação e crescente preocupação para com o bem-estar dos mais novos. Até aqui tudo bem. O problema é quando as fronteiras se esbatem e o amigo surge primeiro do que o pai — sobretudo na adolescência.
Curiosamente, uma investigação norte-americana mostrou, em 2015, que os pais da geração Y, a também chamada geração millenial, querem ser os melhores amigos dos filhos (entre os 6 e os 12 anos, em particular). Segundo o estudo de mercado realizado pelo The Family Room LLC, feito a 1200 indivíduos, esse é o desejo de 54% de pais com idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos; 38% dos pais da geração anterior (geração X), dos 36 aos 50 anos, consideram o mesmo.
Num ensaio de 2012, citado em maio pelo The New York Post, um professor de inglês na Universidade de Stanford perguntou aos seus estudantes quantas vezes por mês falavam com os pais. A resposta: todos os dias. Uma das estudantes, em particular, confessou que falava até sete vezes por dia com a mãe, pessoa que considerou, à data, a sua melhor amiga. Cassandra também fala durante o dia com as duas filhas adolescentes. Diz estar sempre em contacto e, se alguma coisa acontece na escola, há troca de SMS entre mãe e filhas. “Se fazem um teste, por exemplo, contam como correu.”
No mesmo artigo do The New York Post há outras duas ideias a reter: a primeira, de que o mundo já não está dividido entre adultos e crianças, mas sim entre famílias nucleares e todas as outras pessoas; a segunda, de que os filhos já não mascaram os maus comportamentos uma vez que os pais, na ânsia de serem seus amigos, são bem capazes de os tolerar. Sobre isto, a mesma Cassandra diz que, na eventualidade das filhas se portarem mal, não as vai castigar, mas conversar e tolerar. “Se as castigar, da próxima vez já não me vão dizer nada”, justifica.
“De uma forma muito direta, o papel dos pais é serem pais”, defende Filipa Jardim da Silva. Para a psicóloga clínica, os pais são seres cuidadores cujas principais funções passam por “proteger, educar e formar”. “Os amigos são escolhidos, os pais não. Os pais têm uma relação assimétrica com os filhos, que implica muito respeito.” A especialista afirma que o importante é, por isso, não perder a noção dos limites. “Vejo pais a colocarem-se ao nível dos filhos. Oiço relatos de filhos mal-educados, que empurram os pais e pais que respondem na mesma moeda”, confessa. É ao adulto, diz, a quem compete ter maturidade e contenção emocional — “É isso que nos diferencia enquanto pais”.
“Há duas funções parentais: desenvolver nos miúdos um sentimento de pertença e dotá-los da capacidade de socialização e autonomização.”
Rute Agulhas, psicóloga clínica
“Ser amigo do filho significa que ambos estão no mesmo patamar. Isso não pode acontecer”, avisa de forma ainda mais radical Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense. A docente universitária no ISCTE-IUL, que já antes escreveu para o Observador, também diz que é fundamental existir “uma assimetria de poder”. É uma questão de autoridade, mas não de autoritarismo. Os filhos precisam obrigatoriamente de balizas — como quem diz limites –, que devem ser progressivamente flexibilizadas aquando da chegada da adolescência. Na opinião desta profissional, habituada que está a lidar com adolescentes, podem existir dois problemas associados à imposição de limites: “Ou as balizas desaparecem e os miúdos perdem-se, ou as balizas são muito rígidas e eles não têm espaço para se autonomizar. Vejo pais a tratar filhos de 15 anos como se tivessem 10”.
“Há duas funções parentais: desenvolver nos miúdos um sentimento de pertença e dotá-los da capacidade de socialização e autonomização”, sintetiza Agulhas.
Pais e amigos: há uma linha que vos separa
Teresa Tavares não tem dúvidas. Sabe que as duas filhas que tem em casa não lhe contam tudo e não parece preocupar-se com isso. Ao Observador, assegura que elas contam apenas o que acham importante, não que isso a iniba de estar atenta ao comportamento de ambas. “Há coisas que são delas e das amigas. Quando têm um problema grave pedem ajuda. Até hoje tem funcionado assim”, conta a mulher de Santa Maria da Feira que não gosta de ver filhos a tratar os pais pelo nome próprio e mães que interferem na esfera privada das filhas. No outro lado da barricada, Cassandra já deu por si a ver as conversas das filhas no Facebook. Fê-lo por receio, por instinto de proteção. “Li coisas que elas acabaram por, mais tarde, me vir contar.”
“Eu nunca tive acesso aos emails e às redes sociais da minha filha e não quero ter. Acho que ela tem direito à intimidade dela. É uma questão básica de confiança”, diz Paulo que, em entrevista ao Observador, prefere não dar o último nome. “Vejo muito aquele tipo de discurso… quase como se os filhos fossem propriedade dos pais, que acham que têm o direito a ver tudo e a controlar tudo. Acho que sou uma minoria”, atira. Curiosamente, há sensivelmente um ano o pediatra Mário Cordeiro contava ao Observador, numa longa entrevista de vida, que é “gestor dos filhos” e não “dono”.
Sobre isto, Filipa Jardim da Silva defende que os pais devem ser um modelo e que, para tal, é preciso existir alguma distância — ao Observador, a psicóloga clínica diz conhecer pais que chegam a rivalizar com os amigos dos filhos. “É preciso perceber que não é suposto o meu filho adolescente contar-me tudo. Há uma linha de privacidade que é importante que todos tenhamos. Quando vejo pais a serem os conselheiros românticos dos filhos… pode ser problemático. É preciso ter noção do diálogo e das perguntas a fazer, que serão diferentes das de uma amiga.”
Ou seja, é natural e até recomendável que os pais questionem os filhos adolescentes sobre namoros, desde que respeitem as respostas que obtêm (mesmo que não venham recheadas de detalhes interessantes). “Se o filho ou a filha disse que não quer falar sobre isso, os pais têm aí uma oportunidade de mostrar respeito pela sua privacidade e ritmo próprio”, explica Filipa Jardim da Silva. A isso Rute Agulhas acrescenta que é fundamental os pais cultivarem uma comunicação clara com os filhos desde cedo, sem tabus à mistura, e que os temas da sexualidade devem ter abordados de uma forma tranquila. “Mais do que na sexualidade, a reflexão deve ser centrada nos afetos.
O limite que separa os pais de amigos é bem capaz de ser mais visível do que inicialmente esperado e há determinados comportamentos que os pais podem adotar em determinadas situações:
quando vão buscar um filho a casa de amigos, os pais devem evitar ser intrusivos e optar por não conversar com os filhos sobre algo mais sensível à frente desses seus amigos; o importante é não exagerar nos contactos, mas mostrar algum interesse e curiosidade, até porque o filho pode sentir-se invadido e até ansioso;
na relação dos pais com os amigos dos filhos é desejável que haja respeito com limites no tipo de partilhas feitas — no fim do dia, é preciso existir o adulto e o adolescente. “Perder este limite é perder a capacidade de definir regras, de conter, de proteger”, assegura Filipa Jardim da Silva;
e quanto às saídas à noite? “Regra geral, os filhos não querem sair à noite com os pais, antes estar com os amigos. Os pais devem negociar estas saídas e as horas de regresso de forma gradual”, diz Agulhas. “Se for possível nas primeiras saídas, há ganhos de serem os pais a irem buscar os filhos e de medirem bem as autorizações para prenoitar em casa de amigos numa primeira fase”, acrescenta Filipa Jardim.
“É preciso perceber que não é suposto o meu filho adolescente contar-me tudo. Há uma linha de privacidade que é importante que todos tenhamos. Quando vejo pais a serem os conselheiros românticos dos filhos… pode ser problemático. É preciso ter noção do diálogo e das perguntas a fazer, que serão diferentes das de uma amiga.”
Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica
A ideia do respeito e contenção nas partilhas viaja nos dois sentidos: tal como se lê na página Parenting Science, há pesquisas que demonstram a existência de custos associados ao tratamento dos filhos enquanto confidentes — eles e elas podem não reagir bem a “confissões pessoais negativas”. Num estudo em particular, para o qual os investigadores entrevistaram filhas adolescentes de casais divorciados, descobriu-se que essas raparigas tinham uma maior probabilidade de sofrer de problemas psicológicos caso as mães lhes fizessem confissões detalhadas sobre as suas preocupações financeiras, problemas no trabalho ou sentimentos negativos sobre os ex-maridos.
“Há uma fronteira geracional que deve ser mantida e os pais não devem, por exemplo, fazer dos filhos confidentes dos seus problemas pessoais, conjugais ou com amigos. Os filhos precisam de pais com autoridade, que saibam exercer controlo e supervisão”, exemplifica Agulhas. Ambas as psicólogas defendem que os pais devem adequar as suas partilhas às faixas etárias de quem as ouve e que, de uma forma global, não devem falar da sua vida íntima e sexual, nem tão pouco de aspetos relativos à gestão financeira familiar.
Abandono não. É só sensação
Estava a jovem Maria no quinto ou no sexto ano quando começou a pedir ao pai que parasse o carro mais longe do recinto da escola, todas as manhãs. Paulo sentia a filha cada vez mais constrangida e assentiu com naturalidade.”Faz parte, não houve problema. Mas depois percebi que o que a envergonhava era uma coisa muito concreta: a Maria era a única menina da turma que ainda andava de cadeirinha”, recorda — Paulo fala ao telefone com o Observador mas, neste momento, conseguimos adivinhar-lhe o sorriso no rosto. A partir do momento em que deixou de haver cadeirinha, a resistência de Maria passou. Mas podia não ter passado e seria natural e normal se assim fosse.
“Por volta dos 10, 11 anos os miúdos já não querem que os pais os levem à porta da escola. Muito menos querem ‘o’ beijinho à frente das pessoas. Isso fá-los sentirem-se infantilizados”, explica Rute Agulhas. São situações como essas — que mais cedo ou mais tarde acontecem — que fazem alguns pais sentirem uma espécie de abandono. Há pais que ficam angustiados, mas, em última análise, isto mais não é do que a vontade dos filhos em mostrar autonomia. Caso os pais se sintam rejeitados, ao invés de encararem a situação como um sinal positivo, é possível que tal desencadeie nos filhos um conflito de lealdade. “Os miúdos ficam ambivalentes. Querem fazer aquilo que lhes faz sentir bem, mas não querem magoar os pais e podem entrar num processo de sofrimento. Cabe aos pais olhar para isto com naturalidade.”
“Os pais podem e devem ser amigos, mas não se podem resumir a esse papel. Os miúdos precisam de pais que, além de amigos, exerçam autoridade, definam limites.”
Rute Agulhas, psicóloga clínica
Dito isto, será que há pais muito dependentes dos filhos? Rute Agulhas responde que sim e argumenta que há pessoas que se resumem à função parental, que se esquecem dos outros papéis e que, à medida que o tempo passa, antecipam o ninho vazio. O importante, esclarece, é que as famílias se adaptem à medida que os filhos vão crescendo e que as regras sejam flexibilizadas. Mais, há diferentes formas de afeto que não passam necessariamente por expressar um “gosto de ti”: ter interesse nas áreas em que os filhos se movimentam é uma delas. “A adolescência em si é um desafio para as famílias. É sempre preciso redefinir papéis e fronteiras.”
Mas, afinal, até que ponto é que os pais podem ser amigos dos filhos? Filipa Jardim da Silva não é extremista. Diz que primeiro, e acima de tudo, está o papel de pai e mãe, só depois o de amigo. “Falo de ser amigo dentro daquilo que são as funções parentais. É isso que garante aos pais um papel único na vida dos filhos. Os pais esquecem-se disso com frequência.”
Rute Agulhas concorda: “Os pais podem e devem ser amigos, mas não se podem resumir a esse papel. Os miúdos precisam de pais que, além de amigos, exerçam autoridade, definam limites”. É ela quem nos dá a derradeira metáfora: imaginemos um papagaio de papel prestes a ser lançado ao vento; ou damos corda a mais e o papagaio voa para além do nosso controlo ou não damos corda e ele pura e simplesmente cai no chão. “A maior herança que um pai pode deixar a uma criança é uma vinculação segura, que a longo prazo vai deixá-la segura e confiante de si própria. Nenhum pai vai proteger o filhos de todos os erros.” Filipa Jardim da Silva remata: “Ser mãe e pai é algo eterno e muito seguro. É uma questão de prioridades”.
Retirado de: http://observador.pt/especiais/ate-que-ponto-os-pais-devem-seramigos-dos-filhos/ Acedido em: 14-02-2018
*Nome fictício. Esta pessoa não quis ser identificada
Rosário Farmhouse Preside há quatro meses à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens e a sua aposta é fomentar a parentalidade positiva
Rosário Farmhouse chegou à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens há quatro meses. Ao IN, afirmou que um dos seus objetivos é a coesão com as CPCI e passar uma boa imagem do “trabalho fantástico” que fazem. A outra grande aposta é capacitar as famílias para uma parentalidade positiva. Não quis falar do processo Supernanny, mas reconheceu que vivemos tempos complexos e que é difícil educar um jovem, até porque as famílias estão sozinhas. Acredita que a prioridade é ajudar os agregados para que as crianças possam sempre permanecer em meio natural de vida. Quando tal não é possível, acredita que as famílias de acolhimento são uma boa solução.
Um dos objetivos da Comissão Nacional é fazer formação na área da parentalidade positiva. Na prática o que é que isto significa?
Estamos a preparar uma candidatura ao Fundo Social Europeu que terá dois eixos. Por um lado, teremos um projeto que envolve as comissões alargadas, que fazem um diagnóstico e que desenham um plano de prevenção e promoção dos direitos das crianças da comunidade. Por outro lado, temos o eixo destinado às instituições de primeira linha, como escolas ou centros de saúde, e também às próprias famílias, com alguns projetos piloto, que terão lugar no Norte Centro e Alentejo.
Relativamente às famílias, a ideia é ensiná-las a educar os filhos para não terem de recorrer a programas como o Supernanny?
Eu admito que os tempos que estamos a atravessar são muito complexos em termos de educação dos filhos. As famílias precisam de ajuda para perceberem como se lida com estes novos tempos, que trouxeram redes sociais e muitas solicitações que passam através das paredes dos quartos, sem que nos apercebamos. Há toda uma preocupação da Comissão Nacional e queremos fortalecer as famílias. Mas a abordagem a fazer será construída em conjunto com as próprias famílias.
Como é que está a correr o julgamento do processo Supernnany?
Ora aí está um processo do qual não quero falar. Ainda só passaram dois dias da audição de testemunhas. Vai continuar, portanto, aguardemos.
“A família alargada, as relações de vizinhança, tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu. Cada família está muito fechada no seu apartamento”
O que pode dizer de tudo isto que aconteceu a volta da Supemanny ?
Não se tinha visto até hoje esta exposição e ampliação das imagens negativas das crianças através de um programa de televisão, ou seja, uma explora<;ao enorme de imagens das crianças em situações intimas. Mas penso que. face a esta exploração. fomos exemplares, porque nunca, em nenhum outro país, se viu sobre isto uma sociedade tao ativa. Não so as estruturas oficiais, como também outras organizações, juntaram-se em prol desta causa contra o programa.
Há quem diga que todas estas organizações se juntaram contra o programa porque, no fundo, custa ver o resultado da educação exclusivamente permissiva que temos dado as crianças. Concorda?
Penso que os tempos não são simples. Temos uma democracia que não e assim tao crescida, e possível que tenhamos caído no outro extremo. Talvez tenhamos passado de uma educação extremamente rígida, controladora, para um extremo onde poderá valer tudo. Mas não quero generalizar. No caso da Supernanny, as queixas que tivemos aqui foi de pessoas que disseram que não reconheciam os seus familiares naqueles comportamentos. Significa que, de algum modo, as crianças poderiam estar mais stressadas por causa das câmaras.
Mas ha ou não um problema de indisciplina, por exemplo, nas nossas escolas?
Há casos. A diversidade e muita. Mas reconheço que os tempos são complexos, muito complexos. Provavelmente, só agora reconhecemos as consequências da educação permissiva, que não é generalizada. Pode ser difícil encontrar um meio termo, mas não quero generalizar. Reconheço, todavia, que e um problema com dimensão e que temos muito trabalho pela frente.
Fenomenos como o baleia azul dizem-nos o que?
É uma faceta destes tempos complexos. Estamos numa sociedade de solidão, as famílias estão cada vez mais sozinhas, isoladas. A família alargada, as relações de vizinhança. tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu.
Cada familia esta muita fechada no seu apartamento, no seu quarto. Muitas vezes, os pais pensam que o filho por estar em casa esta seguro e, no entanto, através das novas tecnologias pode es tar em perigo. O ritmo de trabalho dos pais, juntamente com a falta de dialogo, com a solidão, leva a que estas coisas sejam descobertas muito tarde.
Esta complexidade dos tempos vai ser abordada nas tais formações de parentalidade positiva?
A ideia e mesmo essa.
A ideia e capacitar a familia?
A prioridade e sempre trabalhar com a família, porque a prioridade e sempre manter os jovens em meio natural de vida. Um dos dramas que enfrentamos hoje e quantidade de famílias onde encontramos problemas de ordem mental, das dependências e depressões.
Relativamente ao objetivo de fazer todos os esforços para manter as crianças em meio natural de vida, os técnicos tern a ideia clara de que isso e prioritário?
Penso que sim.
Pergunto porque ja houve histórias no sentido contrario, como o caso da Liliana Melo, a quern foram retirados os filhos, por exemplo.
As nossas formações servirão para isso também. Para sublinhar essa ideia.
Quando começam essas formações de parentalidade positiva?
No segundo semestre do ano.
O grupo de trabalho que estava no terreno para averiguar se são precisas, ou não, mais famílias de acolhimento ja apresentou conclusões?
Não tenho conhecimento ainda das conclusões. Mas a Comissão Nacional entende que e muito melhor uma criança ere seer numa família de acolhimento do que numa instituição.
Mesmo que a criança vá depois ser retirada aquela familia e passe por outra desvinculação?
Tudo isso tern de ser trabalhado com muito cuidado, certamente.
Há meios e recursos para contornar este problema de saude mental que se encontra em tantas famílias? Reconheço que quando o bolo não é muito grande, e difícil a distribuição. Mas tern havido um reforço aposta nesta área.
Além da parentalidade positiva, que outros objetivos estão na agenda da nova presidente da Comissão Nacional?
São muitos objetivos, mas acima de tudo trazer uma maior coesão entre a comissão nacional e as comissões locais. as CPCJ. E também passar uma mensagem mais positiva do seu trabalho fantástico, trabalho que geralmente e muito falado quando as coisas não correm bem, mas não e tao falado quando as coisas resultam.
Pode ajudar a construir essa imagem positiva alocar as CPCJ mais técnicos, uma vez que ainda temos comissões em que cada técnico tem em mãos dezenas de processos?
A forma como o nosso sistema de promoção e de proteção esta desenhado e muito inovadora, ate porque compromete toda a comunidade em torno das nossas crianças. Infelizmente, ainda não temos todos os intervenientes conscientes da importância de alocarem recursos as comissões.
O que me está a dizer e que quem constitui as comissões alargadas (autarquias, segurança social, IPSS, etc) nem sempre disponibiliza os seus elementos a tempo inteiro, estando as CPCJ com pessoas a tempo parcial…
Muitas vezes, porque também não tem recursos, acabam por disponibilizar pessoas que não tem muito tempo, ou que o perfil não é o mais adequado. Embora, neste momento, creio que se trate mais de uma questão de tempo, o que faz com que muitos estejam muito absorvidos por muitos processos.
Bastaria que algumas das pessoas que estão nas CPCJ a tempo parcial passassem a estar a tempo inteiro ou, de facto, são necessários técnicos novos?
Se cada um conseguisse cumprir com os tempos de afetação que estão previstos, penso que conseguiríamos dar resposta. Naturalmente, há comissões com volumes processuais elevados.
Portanto, a Comissão Nacional não pretende alocar mais gente?
Temos noção de que são precisos alguns reforços e estamos neste momento a fazer uma avaliação no terreno, perceber quais são as CPCI mais necessitadas. Temos de estar atentos as que tem maior volume processual.
Há quem defenda a profissionalização das comissões para evitar-se esta eterna questão do técnico que dá um pouco de tempo a CPCJ, se a entidade para a qual trabalha permitir …
Se em vez de termos estes parceiros todos (autarquias, segurança social, IPSS, etc.) nas comissões alargadas, que depois disponibilizam os seus elementos para as comissões, profissionalizassemos as CPCJ, estaríamos a desvirtuar a ideia deste sistema que compromete toda a comunidade. Mas tem de haver meios, respostas, e reconheço que há fragilidades. Acredito. porém, que o modelo é o indicado.
Já fez um périplo pelas CPCJ em todo o território?
Fiz apenas encontros com as nossas equipas regionais, que agora sao cinco= Norte, Centro, LSS – Lisboa, Santarem e Setubal, Alentejo e Algarve. Ate aqui, estas ultimas tres eram so uma.
O que e o projeto “selo protetor”?
É um projeto recente, lançado em fevereiro, que pretende reconhecer, através de um selo de qualidade, as entidades que se assumam como protetoras das crianças. As candidaturas decorrem até 31 de março. Se as instituições cumprirem uma serie de requisitos, receberão um selo.
À porta das escolas, das actividades extra-curriculares, em restaurantes ou casa de amigos, entre tantos outros locais, assistimos a uma realidade inegável. Jovens sem autonomia, levados e trazidos pelos pais, seja de dia ou de noite. Jovens sem capacidade ou disponibilidade para utilizar transportes públicos ou andar a pé.
Pais que vivem e organizam as suas agendas em função destes horários. Pais que não almoçam porque têm de levar e trazer os filhos, entre a escola e as actividades.
Pais que se levantam a meio da noite para ir buscar os filhos após as suas saídas. Diria que são os modernos “Pais Uber”. Vejamos as consequências que este comportamento parental pode ter no processo de desenvolvimento dos filhos.
A família desempenha duas importantes funções para a criança. A chamada função interna, de estabelecimento de vínculos afectivos e sentimentos de pertença, a par da função externa, que permite e facilita a socialização e integração social. É desejável um equilíbrio entre estas duas funções, facilitando um desenvolvimento mais adaptativo e harmonioso.
Uma criança que cresce num contexto afectuoso e seguro, ao mesmo tempo que lhe permite e incentiva a exploração ambiental é, seguramente, uma criança com mais recursos internos e menor probabilidade em apresentar sintomatologia. Torna-se mais adaptada, com melhor auto-estima, mais segura e confiante na forma como explora o seu meio, como interage e socializa.
Perante isto, diríamos que os ‘Pais Uber’ comprometem, de alguma forma, ambas as funções. Sempre presentes e hipervigilantes, demasiado protectores e, por vezes, mesmo claustrofóbicos, acabam por poder transmitir à criança, ainda que de forma não intencional, que o mundo é perigoso e ameaçador. E crescer com esta percepção do mundo tem consequências significativas no desenvolvimento da criança, com aumento de ansiedade e desconfiança relacional.
Relatório da Direcção de Serviços de Justiça Juvenil traça o percurso de 191 jovens. Peritos concordam: é mais importante o antes e depois do que acontece no centro onde cumprem a medida de internamento
Dois anos depois de terem cumprido uma medida tutelar de internamento num centro educativo, 31% dos jovens reincidiram, ou seja, voltaram a ser condenados, mostram dados compilados no relatório de avaliação da Direcção de Serviços de Justiça Juvenil (DSJJ), com a colaboração dos centros educativos e das equipas de Reinserção Social.
De um universo de 220 jovens que saíram de um centro educativo entre Janeiro de 2015 e Junho de 2017 foi possível avaliar o percurso de 191. A DSJJ concluiu, na análise que já foi entregue ao Parlamento, que no total houve 41 jovens (21,5%) que voltaram a ser condenados em processo penal ou tutelar educativo, na sequência de julgamento. E que outros 26 (13,6%) tinham processos em fase de inquérito no âmbito dos quais podiam vir, “no futuro, a ser condenados em processo penal ou com aplicação de medida tutelar educativa”.
A Lei Tutelar Educativa abrange crianças e jovens com mais de 12 anos e menos de 16 que cometem actos qualificados como crime. A partir dos 16 passam a poder ser responsabilizados criminalmente.
Os números mostram que quanto mais tempo passa desde a saída do centro educativo, maiores são os riscos de reincidência. Dos 191 jovens que a DSJJ seguiu, 36 tinham saído dos centros havia seis meses, 71 havia 12 meses e 84 havia dois anos. As taxas de reincidência registadas em cada grupo foram, respectivamente, de 5,5%,18,3% e 31%.
O Projecto Reincidências – Avaliação da Reincidência dos Jovens Ofensores e Prevenção da Delinquência, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) e realizado pela Universidade do Minho, concluiu em dois momentos, relativos a períodos diferentes, que os jovens que voltaram a cometer delitos representavam um terço do total (33,2%) num caso e 29,2% noutro. Isso permite a Celso Manata, responsável pela DGRSP, dizer que as taxas gerais de reincidência gerais têm vindo a diminuir ligeiramente.
As taxas são também mais baixas se comparadas com outros países europeus, analisa Maria João Leote de Carvalho, representante portuguesa no European Council for Juvenile Justice e investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa. Os mais recentes dados do Ministério da Justiça britânico mostram, por exemplo, que a taxa de reincidência de crianças e jovens foi de 42,2% um ano depois de cumprida a medida (o dobro da referenciada neste relatório português) e chegou quase aos 80% passados dez anos. A investigadora ressalva, no entanto, que a comparação com outros sistemas tem de ter em conta factores como a natureza da intervenção, que em Portugal tem um carácter não penal, e os escalões etários abrangidos, que não são coincidentes (por exemplo, em Inglaterra a idade criminal é aos 10 anos).
Voltando ao relatório, 70,2% dos 124 jovens que não apresentavam quaisquer indicadores de possível reincidência (nem condenações, nem processos em curso) foram considerados integrados, isto é, estavam a estudar ou a frequentar um curso de formação ou a trabalhar com assiduidade e com um comportamento adequado – além de estarem integrados na família ou numa instituição. Porém, quase 14% mostraram sinais de integração de risco, não estando a trabalhar nem a estudar ou tendo dificuldades na integração familiar.
Falhas na protecção
Para a procuradora Maria do Carmo Peralta, coordenadora da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos (CAFCE), as taxas de reincidência não representam uma consequência do que se passa nos centros, antes resultam daquilo que os jovens encontram cá fora antes e depois de serem internados.
“Em termos de promoção e protecção o sistema continua a falhar”, afirma. Isto, porque a esmagadora maioria dos jovens a cumprir medidas tutelares educativas veio sinalizada de processos de promoção e protecção de crianças em risco ou estava acolhida em instituições de acolhimento, revelou um relatório da CAFCE com dados de 2015. “O sistema tem de ser reequacionado”, refere.
Também Mariajoão Leote de Carvalho alerta para uma “questão de fundo” : “A reincidência não deve ser lida de forma linear sobre a natureza e eficácia da intervenção da Justiça juvenil.” Não se pode ignorar “a interacção com outros factores e circunstâncias pessoais e sociais relevantes que ocorrem no percurso de vida de qualquer jovem na transição para a vida adulta”. Por isso, é importante perceber também o tipo de reincidência – se indica uma escalada mais grave ou o contrário, acrescenta.
O próprio director dos Serviços Prisionais refere que “há um trabalho de fundo que tem de ser feito com outros interlocutores com vista a uma intervenção” antecipada, nomeadamente com os serviços de protecção para que “noticiem mais cedo o que acontece ao jovem”, de forma a avaliar se se irá “aplicar uma medida educativa”.
No mesmo sentido vai a opinião do procurador Norberto Martins, coordenador dos magistrados interlocutores das comissões de protecção: “O problema maior põe-se cá fora, quando o jovem regressa ao meio natural, vai encontrar a mesma família, os mesmos amigos e o mesmo bairro.”
E acrescenta: “O trabalho do internamento per si de pouco valerá, se no exterior o jovem não for acompanhado pela Reinserção Social ou outras entidades no âmbito da promoção e protecção. Esse acompanhamento, aliás, está expressamente consagrado na lei.”
Como diria Eduardo Sá, “a família é mais importante do que a escola e brincar é, pelo menos, tão importante como aprender”.
Mas afinal porque é que brincar é tão importante?
Os benefícios acontecem tanto a nível emocional como cognitivo e são tantos que podíamos ficar aqui até amanhã! Mas o objetivo, é que quando acabe de ler este artigo vá brincar com os seus filhos, sobrinhos ou vizinhos. Assim, vamos ser rápidos!
Benefício nº1: Desenvolve a criatividade e agilidade mental
É importante deixar as crianças explorarem e questionar-se sobre as coisas! É através dessas reflexões que elas vão perceber melhor o mundo e é também esta exploração que serve de inspiração para as suas fantasias.
Benefício nº2: Prepara para a vida em sociedade
Não é possível viver sem interações e por isso é importante que as crianças vão aprendendo como lidar com o próximo. Brincar é uma forma para aprender a confiar nos outros, a partilhar, a esperar e a trabalhar em equipa. Até mesmo a liderança e o pensamento estratégico podem ser desenvolvidos em simples brincadeiras como “O rei manda”.
Benefício nº3: Fortalece a relação com os pais, irmãos, amigos
Brincar é o tempo em que as crianças estão mais descontraídas e por isso estão mais propensas a estabelecer relações com quem brincam. Quem não se lembra das brincadeiras que tinha com a irmã mais velha ou os primos em casa dos avós?
São estes momentos felizes que ficam facilmente na memória e que ajudam a fortalecer as relações.
Benefício nº4: Melhora a motricidade fina e capacidade motora
Brincar pode e deve ser didático e instrutivo mas como em tudo na vida é preciso um equilíbrio. As crianças não podem só estar habituadas a jogar PlayStation e jogos educativos. É preciso correr, sair, pular, andar de bicicleta, pintar! Todas estas atividades melhoram os seus movimentos e tornam-nos mais “desenrascados”!
Benefício nº5: Aumenta a imunidade
É saudável as crianças saberem brincar sozinhas , mas a maioria das vezes a brincadeira é com outras crianças e muitas vezes não é no ambiente conhecido da própria casa. Ao ir para um jardim, para casa de um amigo ou para a escola e ao estar em contacto tanto com pessoas diferentes, mas também com ambientes diferentes, a imunidade acaba por ser reforçada.
E então, já se está a preparar para uma boa brincadeira?
Não são precisos grandes brinquedos nem muito tempo! É preferível ter meia hora de brincadeira por dia do que duas horas só ao fim de semana. E quanto aos brinquedos, às vezes nem são necessários, a verdade, é que qualquer coisa serve para brincar desde que exista interesse e criatividade!
Estas histórias nunca deveriam ter acontecido. Mas a verdade é que os abusos e os maus-tratos a crianças são muito mais frequentes do que se pensa. Para ler e, sobretudo, meditar
MARIA ANTÓNIA PALLA (TEXTOS), GONÇALO VIANA (ILUSTRAÇÃO)
Àquela hora todos dormiam. Só ela continuava meio desperta, talvez porque o luar que entrava pela janela viesse direito à sua cama. Foi então que o homem apareceu. Camisa desabotoada, pernas nuas, “aquilo empinado”, uma faca na mão. Não percebeu ao que ele vinha. Mas logo ele se atirou sobre ela, tapando-lhe a boca, ameaçando, “se gritas, mato-te”.
Com a idade que tinha, ela não sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, interrogando-se sobre os ruídos que em certas noites saiam do quarto da mãe e do padrasto. Foi o medo e a dor que a despertaram, enquanto ele a possuía, ofegante, ameaçador, sussurrando-lhe “se abres a boca, mato-te”. Até que parou e se afastou, tão silenciosamente como chegara. Ela continuou deitada, amedrontada, dorida, sangrando, sentindo um líquido morno e de cheiro enjoativo a correr-lhe entre as pernas. Já não conseguiu dormir.
Ao amanhecer, quando a casa começou a agitar-se, levantou-se e foi contar à tia o que se passara. “Isso é mentira. O teu tio é um homem bom, bom marido, bom pai, que a ti e aos teus irmãos sempre vos recebeu bem. Estás a inventar ou então sonhaste. Nem fales disto às tuas primas.” E deu o assunto por encerrado. A criança não se conformou. De seguida, foi contar à mãe que, por falta de espaço em casa, mandava alguns dos cinco filhos dormir a casa da irmã que morava ao lado.“Não quero lá voltar”, disse a criança. Mas a resposta da mãe foi “estás a mentir”. E ordenou que se calasse porque “era um assunto de família”.
A filha obedeceu. Mas o caso repetiu-se durante mais de um ano. Ana tinha apenas oito anos. Nessa altura pensou que tinha de fugir dali. Para onde, como, não sabia. Foi então que conheceu uma senhora que, a troco de pequenos serviços, lhe ofereceu cama e comida. Aceitou. A mãe nem se opôs. Era menos uma boca a sustentar. Foi esta senhora que lhe ensinou a lida da casa, a cozinhar, a fazer doces. “Eu gostava dela e ela de mim.” Era a primeira vez que isso lhe acontecia na vida. Sentirse-ia feliz, não fosse a lembrança daquela noite terrível. O pouco dinheiro que recebia não contava.
Apesar de tudo o que lhe acontecera, e da mágoa provocada pela frieza da mãe que nem um carinho lhe dera, era uma criança alegre, bem disposta, afável, amiga de ajudar os outros. Quem a conhecia gostava logo dela. Mas o medo persistia, embora o calasse dentro de si, às vezes, entristecia-se. Tinha maus sonhos. E chorava às escondidas. Fugia dos rapazes e dos homens. Não suportava que lhe tocassem.
Ana fez-se uma rapariga bonita mas só começou a namorar aos 22 anos. Quando o rapaz emigrou para a capital, resolveu seguilo. Em breve engravidou. E em breve foi abandonada. Temeu o futuro, por ela, pela criança. Mas quando lhe puseram o filhos nos braços, moreninho e uns olhos muito verdes, pensou: “Este é o meu príncipe, tenho muito amor e alegria para lhe dar. Vou lutar por ele. Sobretudo nunca vou dar ao meu filho aquilo porque passei — ser uma criança abusada e abandonada.”
Era preciso enfrentar as coisas boas e más que acontecem na vida. Foram necessários muitos sacrifícios. Mãe solteira e sozinha, sem apoio de família. O pai da criança deu-lhe o nome e desapareceu. Ana morou em casas com ratos e baratas, sem água canalizada. “Passei fome para lhe comprar as fraldas. Mas tinha duas mãos para trabalhar e trabalho nunca me faltou.”
Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros
Ser criança é muitas vezes visto com um pano de fundo em que tudo parece perfeito ou, pelo menos, quase perfeito. No entanto, ser criança não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem-estar; às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz. Afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contaminá-la em todas as as áreas? Quais os ingredientes para uma criança feliz?
A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento. É dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé e depois nos esquecermos de lhe dar amor, ele entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam “depressão analítica”, um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.
O coração da mãe e o coração do pai — sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar! — sabem bem no seu íntimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o amor. O amor seguro e incondicional, o afecto, o mimo, como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!
Não, não é verdade que o mimo estraga as crianças, nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais ou por ter amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.
Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”? Que “mimo mau” é esse que afecta tantas das nossas crianças? É a falta de limites. De novo, os pais são capazes de sentir no seu íntimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio, conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de “general autoritário”, sem parecerem mais assustadores do que seguros. Os limites — embora na fase inicial uma criança os rejeite — atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “Avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer nós não te vamos deixar cair”.
Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.
Desde há 10 anos que o número de crianças e jovens retirados aos pais tem vindo a diminuir em Portugal. Entre 2006 e 2016, houve um decréscimo no sistema de acolhimento de 29%. Mas hoje o paradigma é diferente. Deixaram de ser crianças com carências básicas para serem adolescentes, entre os 15 e os 17 anos, com problemas comportamentais.
São o resultado dos novos conceitos de família, de pais divorciados, de famílias monoparentais ou reconstruídas. E entram em casas de acolhimento já prestes a atingir a maioridade, com problemas de comportamento graves, de toxicodependência e saúde mental. “Aos 17 anos a motivação para o acolhimento não existe”, explica Brígida Ramos, assistente social no distrito de Aveiro, um dos que têm mais jovens acolhidos.
“Reagi muito mal quando saí de casa. Mudei de escola, tive de deixar os meus amigos”. Pedro (nomes fictícios) tinha 12 anos quando chegou à Casa de Acolhimento Crescer a Cores, em Castelo de Paiva, e é um exemplo do novo paradigma do acolhimento.
Regras e pais trabalhados
“Vim aqui parar porque faltava às aulas e porque os meus pais só mandavam vir comigo”, conta. Na parede da entrada está afixada uma tabela com verdes, amarelos e vermelhos, que serve para avaliar a semana. São recompensados pelos verdes, penalizados pelos vermelhos. Ao todo, são 16. Só rapazes, até porque eles (52%) continuam a ser mais no sistema de acolhimento.
Hoje, Pedro tem 16 anos. Estava prestes a ir para o treino de taekwondo, quando contou que ali encontrou amigos. “Agora porto-me bem, respeito as pessoas, não falto às aulas”. Os pais também estão a ser trabalhados, para que no final deste ano letivo o Pedro regresse a casa, explica Marlene Gomes, assistente social na Crescer a Cores.
Por lá, têm regras, como horas para usar o telemóvel e para estudar, e tarefas. Limpam as casas de banho, fazem as camas, ajudam na cozinha, levantam a mesa, tratam da roupa. Afonso tem 15 anos e chegou há sete meses. É um caso particular, porque viu o acolhimento como uma ajuda. “A minha mãe bebia muito e estava com um companheiro com quem só sabia discutir. A juíza disse que era melhor eu vir para aqui. A instituição tem-me ajudado muito”, reconhece. A irmã mais velha de Afonso vai agora requerer a sua tutela.
Gostava que ele fosse advogado, mas ele quer ser futebolista. E porque a instituição tenta ir ao encontro das expectativas dos miúdos, vai começar a jogar no Paivense. Muito antes de Afonso, chegou Ivo, em 2009. Tem agora 17 anos. O pai era alcoólico e vivia-se um cenário de violência em casa. “Eram dias de eu acordar à noite e ele me mandar pedir tabaco às pessoas. Se não chegasse a casa com cigarros levava no corpo”. Os cinco filhos foram todos retirados à família, e Ivo foi institucionalizado com um irmão mais novo, que entretanto foi adotado. “Foi difícil, mas tive ajuda de muitos e levantei sempre a cabeça. Encontrei aqui uma nova família”, agradece. Tudo indicava que Ivo iria ficar na instituição. Até já tinham pensado que se tornaria funcionário quando atingisse a maioridade. Mas não. Uma das irmãs que, na altura, ficou numa instituição diferente, entretanto constituiu família e tem vindo a acolher os irmãos. Encontrou Ivo há um ano e quis adotá-10. O tribunal aceitou, sairá no próximo dia 15. Ao contrário dos outros, a zona de conforto de Ivo é a instituição, vai agora reaprender a viver numa casa. “Por um lado estou triste por abandonar a família que criei aqui, mas por outro estou muito feliz”.
Temos a ilusão que os maus-tratos perpetrados a crianças são fenómenos restringidos a comunidades distantes e pouco civilizadas, onde abunda o abandono, a fome, a violência física e psicológica, a guerra, em suma, o desprezo pelos direitos fundamentais das crianças. Mas não. O flagelo da violência física e psicológica sobre as crianças existe entre nós, quantas das vezes, mesmo à nossa porta, envoltas num silêncio ensurdecedor que a azáfama e o turbilhão diários tornam impercetível. Mas não foi o caso de João Maria que estava à vista de todos. A nossa Lei Fundamental consagra a família como elemento essencial para o desenvolvimento harmonioso da comunidade, tendo direito à proteção da sociedade e do Estado. No preâmbulo da Convenção sobre os Direitos da Criança lê-se que a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e meio natural para o crescimento e bem-estar de todos os seus membros e que a criança, para o de-senvolvimento harmonioso da sua personalidade, deve crescer num ambiente familiar, em clima de felicidade, amor e compreensão. Que realidade tão distante esta para algumas crianças do nosso país, que nós, enquanto comunidade, não conseguimos proteger.
No ano passado, 19 crianças adotadas correram perigo junto da nova família – negligência ou maus-tratos – e voltaram a entrar no sistema de acolhimento. O mesmo aconteceu a cinco crianças em fase de pré-adoção. Somaram-se a 29 outras que, no passado, já tinham saído das famílias adotivas. No total, em 2016, estavam acolhidas 53 crianças que já tinham sido adotadas ou estavam em fase de préadoção, indica o relatório CASA (Caraterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens). São duplamente vitimizadas: pela família biológica e pela adotante.
O relatório indica que estas “voltaram a ser vítimas de situações de perigo” no seio da família adotiva. Perigo suficiente para justificar uma “nova separação temporária” e uma intervenção pelos técnicos, para definir outro projeto de vida. Na maioria dos casos, disse o Instituto de Segurança Social (ISS), esteve em causa a incapacidade dos pais adotivos de lidar com os desafios durante o período de préadoção, como a “aceitação da história de vida e as características da criança, compreensão e aceitação do tempo necessário para que se adapte ao novo contexto familiar”.
Questionado sobre que tipo de perigo corriam os menores tirados aos pais, o ISS disse apenas que se tratou de progenitores sem competências e comportamentos adequados, que punham em causa o bem-estar da criança. Nesses casos, é interrompido o período de pré-adoção, por iniciativa dos próprios pais ou das equipas técnicas, com validação por um tribunal. Notese que só se referiu a menores em fase de pré-adoção, não aos já adotados. Quanto à triagem dos candidatos, para garantir que a criança é entregue a famílias idóneas, é feita mediante a apresentação de documentos (registo criminal, certidão de nascimento de filhos, se houver, e atestado médico). É também feita uma avaliação psicossocial para aferir da sua personalidade e capacidade, as motivações para adotar ou as características da família.
As crianças e pais são acompanhados pelo ISS durante o processo, mas depois de concluída a adoção são, por norma, entregues a si próprias (ler página seguinte).
Confronto do sonho com a realidade
Os pedopsiquiatras alertam para as consequências desta dupla rejeição – pelos pais biológicos e os adotivos – para o desenvolvimento emocional das crianças. A rejeição destes menores é “muito grave”, já que se trata de “crianças vulneráveis, com falhas no desenvolvimento emocional e grandes carências de afetos”, cuja experiência passada as leva a “desenvolver defesas e inseguranças nas relações emocionais”, assegura Pedro Monteiro. Uma adoção falhada tem, por isso, “consequências graves” para o desenvolvimento da sua personalidade.
Manuel Coutinho, do SOS Criança, reforça a ideia de que esta “revitimização” é ainda mais grave do que a original, por ser perpetrada pela família que a devia resgatar do abandono, e usa palavras como “angústia” ou “desespero” para descrever as consequências. Por isso, a adoção traz uma “particular responsabilidade” à nova família. “Não se pode falhar”, disse.
A adaptação, contudo, pode não ser fácil, sobretudo quando a realidade não corresponde ao filho idealizado, dizem os pedopsiquiatras. A convivência diária com uma criança que se conhece mal pode trazer um grau de conflitualidade para o qual a família não está preparada.
A tendência, diz Pedro Monteiro, é culpabilizar os pais adotantes, mas essa é a via fácil. Melhor será analisar os procedimentos de avaliação da sua capacidade para acolher crianças porventura mais difíceis, no que toca à sua tolerância à frustração ou tendência para ter comportamentos de oposição, advoga. Só assim será possível saber se algumas situações podiam ter sido prevenidas.
Manuel Coutinho assegura que o processo de adoção “é muito complexo e as famílias são sujeitas a uma avaliação rigorosa” e destaca que a maioria das adoções é bem sucedida. Mas concorda que os procedimentos “podem sempre ser melhorados”.»
Quando surgiu há 1 1 anos era o único centro de acolhimento infantil com cuidados de enfermagem. Agora quer alargar área de apoio
Em cima, algumas das crianças da Casa do Gil num momento de convívio. Em baixo, o símbolo da Fundação (que vai completar 18 anos) e a Casa do Gil (que celebra hoje 11 anos), e a representação do boneco Gil, a mascote da Expo 98, que teve lugar em Lisboa
Criar uma Unidade de Desenvolvimento Infantil para ajudar as crianças que são acolhidas no seu centro de acolhimento temporário é o próximo projeto da Casa do Gil, instituição que hoje comemora o 11.° aniversário.
“Será um alargamento das nossas valências para uma intervenção completa, o que será único. Fomos o primeiro centro de acolhimento temporário (CAT) a ter cuidados de enfermagem há 11 anos, mas essa área já está hoje mais coberta no geral. Na área da saúde mental é que há um vazio”, explica a presidente executiva da Casa do Gil, Patrícia Boura, que quer ter este projeto ambicioso a funcionar no próximo ano.
A instituição acolhe 16 crianças em permanência dos 0 aos 12 anos, que são ali colocadas pela Segurança Social, depois de as sinalizar como menores em perigo. É no CAT que ficam a aguardar o desfecho do seu processo, que devia demorar meses, mas que pode acabar por se arrastar por anos. Maus-tratos, abandono, negligência são as causas habituais de retirada aos pais biológicos. São meninos que vêm fragilizados e com feridas invisíveis, para além das lesões físicas.
“A Unidade de Desenvolvimento Infantil (UDI) terá seis gabinetes e a ideia é que seja aberta à sociedade civil. Terá um psiquiatra, um terapeuta comportamental, um fisioterapeuta pediátrico, um psicólogo, etc. Será num modelo de parceria com quem sabe fazer isto, ainda não posso revelar quem. As pessoas pagarão as consultas a preços normais de mercado mas iremos tentar também acordos com serviços de saúde e seguros. E vamos garantir que esses técnicos disponibilizem umas quantas horas do seu dia para trabalhar com os nossos meninos”, adiantou Patrícia Boura.
A angariação de fundos para o projeto da UDI que só deverá arrancar no início de 20 18 – e cujo investimento inicial está estimado em 100 mil euros -, vai começar agora. Será um negócio social que depois irá gerar receitas para sustentar outros projetos da Casa do Gil. “Percebemos que estas crianças vêm com uma grande carência emocional, questões comportamentais e de saúde mental porque sofreram maus tratos e negligência. Os relatórios da Segurança Social são muito claros nisso: há uma grande percentagem de crianças em centros de acolhimento que têm problemas mentais”, salientou a responsável.
As situações penosas por que passaram contribuem para os problemas de comportamento destes menores. Na Casa do Gil estão, por exemplo, dois irmãos que foram vítimas de maus-tratos severos pelos pais, que não os queriam. Também já estiveram na instituição três irmãos, cada um filho de um pai diferente, dois dos quais foram reintegrados com sucesso na família, no Algarve, o ano passado. “20 16 foi o ano em que mais crianças passaram por aqui: tivemos 35 mas sempre na lógica das 16 de cada vez, vindas de todo o país. Ou seja, isto estava sempre em fila de espera”.
Chegam a ficar três anos
Por lei, estas crianças devem estar acolhidas num CAT o máximo de seis meses. “Mas como os tribunais estão sempre a promover novas medidas com a família biológica das crianças, de seis em seis meses, essa espera pode ir até aos três anos ou mais”, explicou Patrícia Boura.
A Casa do Gil só tem regras para o limite da idade de admissão dos menores mas não para o tempo que as crianças podem ficar, depois de admitidas. “O tempo médio de permanência das crianças aqui é de 10 meses. Mas já tivemos meninos cujo processo demora três anos a ser resolvido, o que é assustador. Não é o desejável, por causa da dificuldade de interação que depois têm com os mais novos, mas não mandamos ninguém embora”, sublinhou a presidente executiva da Casa do Gil. “Na maior parte dos casos, estes meninos voltam para as famílias. Estudamos o processo e tentamos perceber se é possível recuperar o pai ou a mãe. Quando não é, vemos se há um tio ou tia, se há avós.”
Durante um ano ou ano e meio depois de a criança sair da instituição, a Casa do Gil continua o acompanhamento do menor. “A nossa assistente social visita depois a família e verifica se está tudo a correr bem.”
Um outro projeto que a Casa do Gil quer ter a funcionar no início do próximo ano é um pavilhão multiusos no jardim, no Parque da Saúde, na Avenida do Brasil. “Será um pavilhão aberto à sociedade e que as famílias podem usar para festas de aniversário, ateliês de férias para as crianças e outras atividades, ao longo de todo o ano. A ideia é gerar receitas com o aluguer do espaço a particulares e às empresas numa lógica também de negócio social”, explicou Patrícia Boura.
Está também previsto um alargamento da ação das unidades móveis de apoio ao domicílio, que a Casa do Gil tem a funcionar em Lisboa e no Porto, para ajudar crianças com doenças crónicas que não podem sair de casa. A instituição pretende agora ter também ter unidades móveis de cuidados paliativos pediátricos. A primeira carrinha com equipa começa a funcionar em setembro, no Porto.