À porta das escolas, das actividades extra-curriculares, em restaurantes ou casa de amigos, entre tantos outros locais, assistimos a uma realidade inegável. Jovens sem autonomia, levados e trazidos pelos pais, seja de dia ou de noite. Jovens sem capacidade ou disponibilidade para utilizar transportes públicos ou andar a pé.
Pais que vivem e organizam as suas agendas em função destes horários.
Pais que não almoçam porque têm de levar e trazer os filhos, entre a escola e as actividades.
Pais que se levantam a meio da noite para ir buscar os filhos após as suas saídas.
Diria que são os modernos “Pais Uber”. Vejamos as consequências que este comportamento parental pode ter no processo de desenvolvimento dos filhos.
A família desempenha duas importantes funções para a criança. A chamada função interna, de estabelecimento de vínculos afectivos e sentimentos de pertença, a par da função externa, que permite e facilita a socialização e integração social. É desejável um equilíbrio entre estas duas funções, facilitando um desenvolvimento mais adaptativo e harmonioso.
Uma criança que cresce num contexto afectuoso e seguro, ao mesmo tempo que lhe permite e incentiva a exploração ambiental é, seguramente, uma criança com mais recursos internos e menor probabilidade em apresentar sintomatologia. Torna-se mais adaptada, com melhor auto-estima, mais segura e confiante na forma como explora o seu meio, como interage e socializa.
Perante isto, diríamos que os ‘Pais Uber’ comprometem, de alguma forma, ambas as funções. Sempre presentes e hipervigilantes, demasiado protectores e, por vezes, mesmo claustrofóbicos, acabam por poder transmitir à criança, ainda que de forma não intencional, que o mundo é perigoso e ameaçador. E crescer com esta percepção do mundo tem consequências significativas no desenvolvimento da criança, com aumento de ansiedade e desconfiança relacional.