No ano passado, 19 crianças adotadas correram perigo junto da nova família – negligência ou maus-tratos – e
voltaram a entrar no sistema de acolhimento. O mesmo aconteceu a cinco crianças em fase de pré-adoção.
Somaram-se a 29 outras que, no passado, já tinham saído das famílias adotivas. No total, em 2016, estavam acolhidas 53 crianças que já tinham sido adotadas ou estavam em fase de préadoção, indica o relatório CASA (Caraterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens). São duplamente vitimizadas: pela família biológica e pela adotante.
O relatório indica que estas “voltaram a ser vítimas de situações de perigo” no seio da família adotiva. Perigo suficiente para justificar uma “nova separação temporária” e uma intervenção pelos técnicos, para definir outro projeto de vida. Na maioria dos casos, disse o Instituto de Segurança Social (ISS), esteve em causa a incapacidade dos pais adotivos de lidar com os desafios durante o período de préadoção, como a “aceitação da história de vida e as características da criança, compreensão e aceitação do tempo necessário para que se adapte ao novo contexto familiar”.
Questionado sobre que tipo de perigo corriam os menores tirados aos pais, o ISS disse apenas que se tratou
de progenitores sem competências e comportamentos adequados, que punham em causa o bem-estar da criança. Nesses casos, é interrompido o período de pré-adoção, por iniciativa dos próprios pais ou das equipas técnicas, com validação por um tribunal. Notese que só se referiu a menores em fase de pré-adoção, não aos já adotados. Quanto à triagem dos candidatos, para garantir que a criança é entregue a famílias idóneas, é feita mediante a apresentação de documentos (registo criminal, certidão de nascimento de filhos, se houver, e atestado médico). É também feita uma avaliação psicossocial para aferir da sua personalidade e capacidade, as motivações para adotar ou as características da família.
As crianças e pais são acompanhados pelo ISS durante o processo, mas depois de concluída a adoção são, por
norma, entregues a si próprias (ler página seguinte).
Confronto do sonho com a realidade
Os pedopsiquiatras alertam para as consequências desta dupla rejeição – pelos pais biológicos e os adotivos –
para o desenvolvimento emocional das crianças. A rejeição destes menores é “muito grave”, já que se trata de “crianças vulneráveis, com falhas no desenvolvimento emocional e grandes carências de afetos”, cuja experiência passada as leva a “desenvolver defesas e inseguranças nas relações emocionais”, assegura Pedro Monteiro. Uma adoção falhada tem, por isso, “consequências graves” para o desenvolvimento da sua personalidade.
Manuel Coutinho, do SOS Criança, reforça a ideia de que esta “revitimização” é ainda mais grave do que a original, por ser perpetrada pela família que a devia resgatar do abandono, e usa palavras como “angústia” ou “desespero” para descrever as consequências. Por isso, a adoção traz uma “particular responsabilidade” à nova
família. “Não se pode falhar”, disse.
A adaptação, contudo, pode não ser fácil, sobretudo quando a realidade não corresponde ao filho idealizado,
dizem os pedopsiquiatras. A convivência diária com uma criança que se conhece mal pode trazer um grau de conflitualidade para o qual a família não está preparada.
A tendência, diz Pedro Monteiro, é culpabilizar os pais adotantes, mas essa é a via fácil. Melhor será analisar
os procedimentos de avaliação da sua capacidade para acolher crianças porventura mais difíceis, no que toca à sua tolerância à frustração ou tendência para ter comportamentos de oposição, advoga. Só assim será possível saber se algumas situações podiam ter sido prevenidas.
Manuel Coutinho assegura que o processo de adoção “é muito complexo e as famílias são sujeitas a uma avaliação rigorosa” e destaca que a maioria das adoções é bem sucedida. Mas concorda que os procedimentos “podem sempre ser melhorados”.»
Fonte: Jornal de Notícias