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“As famílias estão cada vez mais sozinhas, isoladas”

Rosário Farmhouse Preside há quatro meses à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens e a sua aposta é fomentar a parentalidade positiva

Rosário Farmhouse chegou à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens há quatro meses. Ao IN, afirmou que um dos seus objetivos é a coesão com as CPCI e passar uma boa imagem do “trabalho fantástico” que fazem. A outra grande aposta é capacitar as famílias para uma parentalidade positiva. Não quis falar do processo Supernanny, mas reconheceu que vivemos tempos complexos e que é difícil educar um jovem, até porque as famílias estão sozinhas. Acredita que a prioridade é ajudar os agregados para que as crianças possam sempre permanecer em meio natural de vida. Quando tal não é possível, acredita que as famílias de acolhimento são uma boa solução.

Um dos objetivos da Comissão Nacional é fazer formação na área da parentalidade positiva. Na prática o que é que isto significa?

Estamos a preparar uma candidatura ao Fundo Social Europeu que terá dois eixos. Por um lado, teremos um projeto que envolve as comissões alargadas, que fazem um diagnóstico e que desenham um plano de prevenção e promoção dos direitos das crianças da comunidade. Por outro lado, temos o eixo destinado às instituições de primeira linha, como escolas ou centros de saúde, e também às próprias famílias, com alguns projetos piloto, que terão lugar no Norte Centro e Alentejo.

Relativamente às famílias, a ideia é ensiná-las a educar os filhos para não terem de recorrer a programas como o Supernanny?

Eu admito que os tempos que estamos a atravessar são muito complexos em termos de educação dos filhos. As famílias precisam de ajuda
para perceberem como se lida com estes novos tempos, que trouxeram redes sociais e muitas solicitações que passam através das paredes dos quartos, sem que nos apercebamos. Há toda uma preocupação da Comissão Nacional e queremos fortalecer as famílias. Mas a abordagem a fazer será construída em conjunto com as próprias famílias.

Como é que está a correr o julgamento do processo Supernnany?

Ora aí está um processo do qual não quero falar. Ainda só passaram dois dias da audição de testemunhas. Vai continuar, portanto, aguardemos.

“A família alargada, as relações de vizinhança, tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu. Cada família está muito fechada no seu apartamento”

O que pode dizer de tudo isto que aconteceu a volta da Supemanny ?

Não se tinha visto até hoje esta expo­sição e ampliação das imagens nega­tivas das crianças através de um pro­grama de televisão, ou seja, uma ex­plora<;ao enorme de imagens das crianças em situações intimas. Mas penso que. face a esta exploração. fo­mos exemplares, porque nunca, em nenhum outro país, se viu sobre isto uma sociedade tao ativa. Não so as estruturas oficiais, como também ou­tras organizações, juntaram-se em prol desta causa contra o programa.

Há quem diga que todas estas orga­nizações se juntaram contra o pro­grama porque, no fundo, custa ver o resultado da educação exclusivamente permissiva que temos dado as crianças. Concorda?

Penso que os tempos não são sim­ples. Temos uma democracia que não e assim tao crescida, e possível que tenhamos caído no outro extremo. Talvez tenhamos passado de uma educação extremamente rígida, con­troladora, para um extremo onde po­derá valer tudo. Mas não quero gene­ralizar. No caso da Supernanny, as queixas que tivemos aqui foi de pes­soas que disseram que não reconhe­ciam os seus familiares naqueles comportamentos. Significa que, de algum modo, as crianças poderiam estar mais stressadas por causa das câmaras.

Mas ha ou não um problema de in­disciplina, por exemplo, nas nossas escolas?

Há casos. A diversidade e muita. Mas reconheço que os tempos são com­plexos, muito complexos. Provavel­mente, só agora reconhecemos as consequências da educação permis­siva, que não é generalizada. Pode ser difícil encontrar um meio termo, mas não quero generalizar. Reconheço, todavia, que e um problema com di­mensão e que temos muito trabalho pela frente.

Fenomenos como o baleia azul di­zem-nos o que?

É uma faceta destes tempos comple­xos. Estamos numa sociedade de so­lidão, as famílias estão cada vez mais sozinhas, isoladas. A família alarga­da, as relações de vizinhança. tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu.

Cada familia esta muita fechada no seu apartamento, no seu quarto. Mui­tas vezes, os pais pensam que o filho por estar em casa esta seguro e, no entanto, através das novas tecnolo­gias pode es tar em perigo. O ritmo de trabalho dos pais, juntamente com a falta de dialogo, com a solidão, leva a que estas coisas sejam descobertas muito tarde.

Esta complexidade dos tempos vai ser abordada nas tais formações de parentalidade positiva?

A ideia e mesmo essa.

A ideia e capacitar a familia?

A prioridade e sempre trabalhar com a família, porque a prioridade e sem­pre manter os jovens em meio natu­ral de vida. Um dos dramas que en­frentamos hoje e quantidade de famílias onde encontramos problemas de ordem mental, das dependências e depressões.

Relativamente ao objetivo de fazer todos os esforços para manter as crianças em meio natural de vida, os técnicos tern a ideia clara de que isso e prioritário?

Penso que sim.

Pergunto porque ja houve histórias no sentido contrario, como o caso da Liliana Melo, a quern foram reti­rados os filhos, por exemplo.

As nossas formações servirão para isso também. Para sublinhar essa ideia.

Quando começam essas formações de parentalidade positiva?

No segundo semestre do ano.

O grupo de trabalho que estava no terreno para averiguar se são pre­cisas, ou não, mais famílias de aco­lhimento ja apresentou conclu­sões?

Não tenho conhecimento ainda das conclusões. Mas a Comissão Nacio­nal entende que e muito melhor uma criança ere seer numa família de aco­lhimento do que numa instituição.

Mesmo que a criança vá depois ser retirada aquela familia e passe por outra desvinculação?

Tudo isso tern de ser trabalhado com muito cuidado, certamente.

Há meios e recursos para contornar este problema de saude mental que se encontra em tantas famílias? Reconheço que quando o bolo não é muito grande, e difícil a distribuição. Mas tern havido um reforço aposta nesta área.

Além da parentalidade positiva, que outros objetivos estão na agen­da da nova presidente da Comissão Nacional?

São muitos objetivos, mas acima de tudo trazer uma maior coesão entre a comissão nacional e as comissões lo­cais. as CPCJ. E também passar uma mensagem mais positiva do seu tra­balho fantástico, trabalho que geral­mente e muito falado quando as coi­sas não correm bem, mas não e tao falado quando as coisas resultam.

Pode ajudar a construir essa ima­gem positiva alocar as CPCJ mais técnicos, uma vez que ainda temos comissões em que cada técnico tem em mãos dezenas de processos?

A forma como o nosso sistema de promoção e de proteção esta dese­nhado e muito inovadora, ate porque compromete toda a comunidade em torno das nossas crianças. Infeliz­mente, ainda não temos todos os in­tervenientes conscientes da impor­tância de alocarem recursos as comissões.

O que me está a dizer e que quem constitui as comissões alargadas (autarquias, segurança social, IPSS, etc) nem sempre disponibiliza os seus elementos a tempo inteiro, es­tando as CPCJ com pessoas a tempo parcial…

Muitas vezes, porque também não tem recursos, acabam por disponibi­lizar pessoas que não tem muito tem­po, ou que o perfil não é o mais ade­quado. Embora, neste momento, creio que se trate mais de uma ques­tão de tempo, o que faz com que mui­tos estejam muito absorvidos por muitos processos.

Bastaria que algumas das pessoas que estão nas CPCJ a tempo parcial passassem a estar a tempo inteiro ou, de facto, são necessários técni­cos novos?

Se cada um conseguisse cumprir com os tempos de afetação que estão previstos, penso que conseguiríamos dar resposta. Naturalmente, há co­missões com volumes processuais elevados.

Portanto, a Comissão Nacional não pretende alocar mais gente?

Temos noção de que são precisos al­guns reforços e estamos neste mo­mento a fazer uma avaliação no ter­reno, perceber quais são as CPCI mais necessitadas. Temos de estar atentos as que tem maior volume processual.

Há quem defenda a profissionaliza­ção das comissões para evitar-se esta eterna questão do técnico que dá um pouco de tempo a CPCJ, se a entidade para a qual trabalha permitir …

Se em vez de termos estes par­ceiros todos (au­tarquias, segu­rança social, IPSS, etc.) nas comis­sões alargadas, que depois disponi­bilizam os seus elementos para as co­missões, profissionalizassemos as CPCJ, estaríamos a desvirtuar a ideia deste sistema que compromete toda a comunidade. Mas tem de haver meios, respostas, e reconheço que há fragilidades. Acredito. porém, que o modelo é o indicado.

Já fez um périplo pelas CPCJ em todo o território?

Fiz apenas encontros com as nossas equipas regionais, que agora sao cin­co= Norte, Centro, LSS – Lisboa, San­tarem e Setubal, Alentejo e Algarve. Ate aqui, estas ultimas tres eram so uma.

O que e o projeto “selo protetor”?

É um projeto recente, lançado em fe­vereiro, que pretende reconhecer, através de um selo de qualidade, as entidades que se assumam como protetoras das crianças. As candida­turas decorrem até 31 de março. Se as instituições cumprirem uma serie de requisitos, receberão um selo.

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