Desde há 10 anos que o número de crianças e jovens retirados aos pais tem vindo a diminuir em Portugal. Entre 2006 e 2016, houve um decréscimo no sistema de acolhimento de 29%. Mas hoje o paradigma é diferente. Deixaram de ser crianças com carências básicas para serem adolescentes, entre os 15 e os 17 anos, com problemas comportamentais.
São o resultado dos novos conceitos de família, de pais divorciados, de famílias monoparentais ou reconstruídas. E entram em casas de acolhimento já prestes a atingir a maioridade, com problemas de comportamento graves, de toxicodependência e saúde mental. “Aos 17 anos a motivação para o acolhimento não existe”, explica Brígida Ramos, assistente social no distrito de Aveiro, um dos que têm mais jovens acolhidos.
“Reagi muito mal quando saí de casa. Mudei de escola, tive de deixar os meus amigos”. Pedro (nomes fictícios) tinha 12 anos quando chegou à Casa de Acolhimento Crescer a Cores, em Castelo de Paiva, e é um exemplo do novo paradigma do acolhimento.
Regras e pais trabalhados
“Vim aqui parar porque faltava às aulas e porque os meus pais só mandavam vir comigo”, conta. Na parede da entrada está afixada uma tabela com verdes, amarelos e vermelhos, que serve para avaliar a semana. São recompensados pelos verdes, penalizados pelos vermelhos. Ao todo, são 16. Só rapazes, até porque eles (52%) continuam a ser mais no sistema de acolhimento.
Hoje, Pedro tem 16 anos. Estava prestes a ir para o treino de taekwondo, quando contou que ali encontrou amigos. “Agora porto-me bem, respeito as pessoas, não falto às aulas”. Os pais também estão a ser trabalhados, para que no final deste ano letivo o Pedro regresse a casa, explica Marlene Gomes, assistente social na Crescer a Cores.
Por lá, têm regras, como horas para usar o telemóvel e para estudar, e tarefas. Limpam as casas de banho, fazem as camas, ajudam na cozinha, levantam a mesa, tratam da roupa. Afonso tem 15 anos e chegou há sete meses. É um caso particular, porque viu o acolhimento como uma ajuda. “A minha mãe bebia muito e estava com um
companheiro com quem só sabia discutir. A juíza disse que era melhor eu vir para aqui. A instituição tem-me ajudado muito”, reconhece. A irmã mais velha de Afonso vai agora requerer a sua tutela.
Gostava que ele fosse advogado, mas ele quer ser futebolista. E porque a instituição tenta ir ao encontro das expectativas dos miúdos, vai começar a jogar no Paivense. Muito antes de Afonso, chegou Ivo, em 2009. Tem agora 17 anos. O pai era alcoólico e vivia-se um cenário de violência em casa. “Eram dias de eu acordar à noite e ele me mandar pedir tabaco às pessoas. Se não chegasse a casa com cigarros levava no corpo”. Os cinco filhos foram todos retirados à família, e Ivo foi institucionalizado com um irmão mais novo, que entretanto foi adotado. “Foi difícil, mas tive ajuda de muitos e levantei sempre a cabeça. Encontrei aqui uma nova família”, agradece. Tudo indicava que Ivo iria ficar na instituição. Até já tinham pensado que se tornaria funcionário quando atingisse a
maioridade. Mas não. Uma das irmãs que, na altura, ficou numa instituição diferente, entretanto constituiu família e tem vindo a acolher os irmãos. Encontrou Ivo há um ano e quis adotá-10. O tribunal aceitou, sairá no próximo dia 15. Ao contrário dos outros, a zona de conforto de Ivo é a instituição, vai agora reaprender a viver numa casa. “Por um lado estou triste por abandonar a família que criei aqui, mas por outro estou muito feliz”.
Fonte: Jornal de Notícias