É aquele o momento exato em que todas as certezas desaparecem: a terra treme e tudo pode mudar. Sabe-se que há zonas do mundo onde as pessoas estão habituadas, preparadas para reagir. E se o abanão sobe pela escala de
Richter- expressão demasiado literal, bem sei- e tudo desaba? Uma força implacável, natural, um barulho vindo do fundo da terra e é o medo puro e duro. O medo atávico e animal, imediato. Foi assim agora no Nepal, o país que se reconstrói cíclica e pacientemente, o lugar mítico do ponto mais alto do planeta e dos recolhimentos espirituais. Chegam imagens terríveis, distantes e tragicamente belas. Os números sempre a crescer: um milhão de crianças em risco, oito milhões de pessoas atingidas, quatrocentos mil edifícios destruídos, confirmados 4600 mortos, mas podem vir a ser mais do dobro. E os sobreviventes a escavar com as mãos procurando, procurando, com medo de desistir.
Valorizamos o medo porque é ele que nos alerta para o perigo e nos impele a reagir. Admiramos a capacidade de enfrentar e ultrapassar. Falamos de heróis, gente intrépida ate à irrazoabilidade. Ajudamos as crianças a deixar de temer a escuridão, explicamos-lhes os perigos do fogo, protegemo-las dos riscos mais evidentes. Contamos histórias em que os medos são resolvidos, lobos maus de barriga aberta, bruxas malévolas derrotadas pela bondade. Encontramos na Bíblia, nos clássicos da literatura, do teatro, do cinema, todos os medos declinados em múltiplas parábolas e culturas. E vamos crescendo de medo em medo, dos nossos e dos que podem tocar os que nos são mais queridos.
Mas quando nenhuma proteção é eficaz, porque a natureza, o mal ou o acaso são mais fortes do que as paredes que construímos? Katmandu, as aldeias rurais, as fraturas extensas e sinuosas nas estradas são a confirmação dos medos
antigos. Como a ilha do Fogo em dezembro passado, Angra do Heroísmo em 1980, tantas vezes o Japão, o Chile, a costa ocidental dos Estados Unidos, o tsunami de 2004 no Índico. Como Lisboa em 1755.
E depois, enterrados os mortos e tratados os feridos, reconstruídas as casas, arrumados os destroços, a vida regressa, imparável, um enorme dia seguinte chamado futuro com novos e velhos medos lá dentro. E haverá sempre mais gente pronta para subir o Evereste, todos os everestes, afazer o dia-a-dia e a insistir em chegar mais longe contra todas as hipóteses. Porquê? Porque ele está lá, disse em 1923 George Mallory, a explicar porque queria subir o Evereste. “Porque ele
está lá e a existência dele é um desafio.” Porque ávida é todos os dias um desafio perante o conhecido e o desconhecido, mesmo quando nada disso é evidente.