“Metade das crianças para adoção ficam nas Instituições” – Jornal de Notícias

A nova Lei da Adoção tem já dois anos, mas, apesar de ter encurtado prazos, para se agilizarem os processos, as adoções decretadas continuam a ficar aquém das crianças inicialmente propostas. Em 2016, das 830 que tinham como projeto de vida a adoção – entre as 8175 que estavam institucionalizadas -, apenas 361 viram esta medida ser confirmada judicialmente. Ou seja, menos de metade. Quem está no terreno diz que, “para começar, o acolhimento nas instituições deveria mesmo ser temporário”. Uma análise dos números permite perceber que, entre 2015 e 2016, diminuíram as situações propostas de 882 para 830; que aumentaram de 359 para 361 as decretadas e que baixou o número de casos à espera entre uma fase e outra. Mas isso só acontece porque são menos os que têm este projeto de vida.

“O que se passa é que em Portugal não temos, de facto, acolhimento temporário de crianças em risco”, avança Luís Villas- Boas, diretor do Refúgio Aboim Ascensão, uma instituição de acolhimento no Algarve. Aquele responsável sublinha que “todo o acolhimento deveria ser mesmo temporário, com o objetivo de, o mais rapidamente possível, entregar as crianças às famílias ou a famílias adotivas”. O que “não devem é ficar eternamente nas instituições”, afirma. Só em 2017, do Refúgio Aboim Ascensão “saíram 30 meninos para adoção”, assevera. Atualmente, a lei obriga a que se defina se uma criança é ou não adotável no prazo máximo de um mês. Os números revelam, porém, que de 2015 para 2016 diminuíram os projetos de vida para adoção.

Para agilizar os processos – já num momento posterior -, a Lei 143/2015 encurtou, por exemplo, a fase de pré-adoção, não podendo ultrapassar os seis meses (antes, era um ano). Chegados a esta fase, se tudo correr bem, passado meio ano deve ser decretada. Apenas em casos muito excecionais a lei prevê, no ponto 5 do artigo 50º, que este período possa ser alargado por mais três meses.

E ainda antes disto, na fase de seleção dos candidatos a pais, os serviços que dão início ao processo devem acabar a sua avaliação também num prazo máximo de seis meses. Nestas duas etapas, seleção dos pais e pré-adoção, a lei poupou um ano a futuros pais e filhos.

400 crianças que ninguém quis

Então, por que razão é que não são decretadas mais adoções? Porque a questão vai além do que a lei pode ou não pode agilizar. Esta é uma matéria que esbarra também nos candidatos a adotar. Dos menores que são propostos para adoção, nem todos terão candidatos a pais.

No início de 2016, dados oficiais davam conta de 399 pequeninos que ninguém queria, apesar de haver quase duas mil pessoas em lista para adotar.

Com alguma variação nos números, esta é uma realidade constante há muitos anos. Para o Instituto da Segurança Social, isto “explica-se com o facto de a maioria das crianças propostas para adoção ter mais de seis anos e a maioria dos candidatos a pais quererem crianças até aos seis anos”.

Também é difícil que irmãos sejam adotados, ainda que ao longo dos anos a situação tenha melhorado, e dificilmente alguém adotará crianças com problemas de saúde. De resto, “ainda é muito cedo para avaliar o impacto desta lei”, concluiu Luís Villas-Boas.

Institucionalização arrasta-se no tempo

Segundo o último relatório CASA, estavam institucionalizadas 8175 crianças, no ano de 2016. Dessas, 5779 tinham iniciado o acolhimento num ano anterior a 2016. Do número total, apenas 2396 iniciaram o acolhimento no
ano em causa.

Meninos seguidos na saúde mental

Ainda de acordo com o último relatório CASA, que caracteriza o acolhimento em 2016, quase 80% dos meninos que estavam institucionalizados tiveram acompanhamento na área da saúde mental e um quinto (1600) estava mesmo medicado.

Conhecer as origens biológicas

A nova lei prevê que os jovens que foram adotados possam, a partir dos 16 anos, conhecer toda a informação sobre os seus pais biológicos. Para isso, têm de solicitar os dados aos serviços da Segurança Social. “Os organismos da Segurança Social, mediante solicitação expressa do adotado com idade igual ou superior a 16 anos, têm o dever de prestar informação, aconselhamento e apoio técnico no acesso ao conhecimento das suas origens”, pode lerse. Ainda assim, o diploma remete para o Código Civil, mais concretamente para o n. s 2 do artigo 1985, para lembrar que os pais biológicos podem não autorizar informação sobre a sua identidade, desde que emitam uma declaração expressa. De resto, a Segurança Social deve manter toda a informação a propósito das origens biológicas do jovem que foi adotado durante 50 anos após a data da sentença de adoção. Esta nova lei, que passa a ser regulada por diploma próprio (143/2015) prevê, igualmente, tudo o que diga respeito à adoção internacional.

Fonte; Jornal de Notícias

Associação Abrigo ofereceu baptismo de voo a dezenas de crianças

Passeio em avião da Força Aérea sobrevoou Arrábida, Tróia e o Tejo. Para uma das meninas participantes foi “a melhor experiência” que já viveu.

A Abrigo, Associação Portuguesa de Apoio à Criança, que tem sede no Montijo, ofereceu uma experiência de baptismo de voo a 20 famílias e 30 crianças e jovens, aproveitando as comemorações dos 66 anos da Base Aérea N.º 6, do Montijo.

As crianças e restantes passageiros voaram num avião C-295M da Força Aérea Portuguesa (FAP), operado pelo piloto capitão Diogo Duarte, co-piloto tenente Gheorghe Mudric e por mais quatro militares, nomeadamente os operadores de cabine primeiros sargentos Hugo Coelho e Marco Aires e pelo segundo sargento Simão Reis.

O passeio, com a duração de cerca de 25 minutos, passou pela Serra da Arrábida, Tróia, Palmela, Costa, Rio Tejo, concelho Moita e concelho Montijo, oferecendo imagens aéreas que encantaram os participantes.

Tantos os miúdos como os graúdos adoraram a oportunidade, dizendo que fica gravada nas suas memórias positivas e algumas pediram para repetir a experiência.

“Vou escrever esta viagem no meu diário, vai ser a primeira coisa que escrevo porque foi o melhor que me aconteceu até hoje! Foi a melhor experiência da minha vida!”, disse uma menina de 10 anos, que nunca tinha andado de avião e que participou sem a família, acompanhada apenas pela equipa militar. Ao inicio sentiu-se indisposta mas no final estava maravilhada.

Para vários participantes foi a primeira vez que andaram de avião, para os outros foi também uma experiência nova porque andar num avião militar tem “mais adrenalina” do que viajar num avião civil.

Fonte: Diário da Região

“Até que ponto os pais devem ser amigos dos filhos?” – Dra. Ana Cristina Marques

Longe vai o tempo da figura parental autoritária. Pais e filhos estão cada vez mais próximos, mas nem sempre as fronteiras estão bem definidas. O que acontece quando o amigo vem primeiro do que o pai?

“Na minha opinião, ser mãe não se deve confundir com ser amiga. Enquanto mãe, é preciso criarmos regras e mostrar que estamos presentes quando elas quiserem falar de problemas.” Teresa Tavares, engenheira de produção, vive com as duas filhas adolescentes, de 13 e 14 anos, em Santa Maria da Feira. E insiste no seu ponto de vista sobre as relações entre mães e filhas: “Não nos podemos confundir com as melhores amigas”.

Cassandra*, da Figueira da Foz, tem uma opinião um pouco diferente. Diz ser amiga e mãe, uma pessoa a quem as filhas, também elas adolescentes, acabam por contar tudo. É uma questão de acompanhamento e de confiança. Já Paulo, pai de Maria, de 17 anos, confessa que lhe faz confusão “quando os pais tentam
ser os melhores amigos”.

O debate sobre até que ponto os pais devem ser amigos dos filhos não é novo, mas está cada vez mais atual. Basta olhar para a geração dos avós para perceber que a relação que estes tinham com os filhos era muito diferente da que existe hoje em dia dos seus filhos com os seus netos. Nem de propósito, a historiadora Stephanie Coontz chegou a contar ao The Cut que a ideia de pais e filhos amigos é relativamente nova e surgiu no contexto de “práticas mais democráticas para educar as crianças”, no século passado. “Hoje em dia, os pais querem muito que os seus filhos sejam indivíduos”, diz. Embora tentem incutir os seus valores, existe uma diferença face ao passado, quando os pais acreditavam que o melhor (e o mais seguro) era os filhos obedecerem e seguir as
suas pisadas.

“Os amigos são escolhidos, os pais não. Os pais têm uma relação assimétrica com os filhos, que implica muito respeito.”

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica

Em 2015, a socióloga Sofia Aboim falava ao Observador sobre a “erosão do modelo de distanciamento geracional” — em vez do pai patriarca,
associado a uma figura mais rígida de outros tempos, atualmente existe entre pais e filhos maior companheirismo, necessidade de comunicação e crescente preocupação para com o bem-estar dos mais novos. Até aqui tudo bem. O problema é quando as fronteiras se esbatem e o amigo surge primeiro do que o pai — sobretudo na adolescência.

Curiosamente, uma investigação norte-americana mostrou, em 2015, que os pais da geração Y, a também chamada geração millenial, querem ser os melhores amigos dos filhos (entre os 6 e os 12 anos, em particular). Segundo o estudo de mercado realizado pelo The Family Room LLC, feito a 1200 indivíduos, esse é o desejo de 54% de pais com idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos; 38% dos pais da geração anterior (geração X), dos 36 aos 50 anos, consideram o mesmo.

Num ensaio de 2012, citado em maio pelo The New York Post, um professor de inglês na Universidade de Stanford perguntou aos seus estudantes quantas vezes por mês falavam com os pais. A resposta: todos os dias. Uma das estudantes, em particular, confessou que falava até sete vezes por dia com a mãe, pessoa que considerou, à data, a sua melhor amiga. Cassandra também fala durante o dia com as duas filhas adolescentes. Diz estar sempre em contacto e, se alguma coisa acontece na escola, há troca de SMS entre mãe e filhas. “Se fazem um teste, por exemplo, contam como correu.”

No mesmo artigo do The New York Post há outras duas ideias a reter: a primeira, de que o mundo já não está dividido entre adultos e crianças, mas sim entre famílias nucleares e todas as outras pessoas; a segunda, de que os filhos já não mascaram os maus comportamentos uma vez que os pais, na ânsia de serem seus amigos, são bem capazes de os tolerar. Sobre isto, a mesma Cassandra diz que, na eventualidade das filhas se portarem mal, não as vai castigar, mas conversar e tolerar. “Se as castigar, da próxima vez já não me vão dizer nada”, justifica.

“De uma forma muito direta, o papel dos pais é serem pais”, defende Filipa Jardim da Silva. Para a psicóloga clínica, os pais são seres cuidadores cujas principais funções passam por “proteger, educar e formar”. “Os amigos são escolhidos, os pais não. Os pais têm uma relação assimétrica com os filhos, que implica muito respeito.” A especialista afirma que o importante é, por isso, não perder a noção dos limites. “Vejo pais a colocarem-se ao nível dos filhos. Oiço relatos de filhos mal-educados, que empurram os pais e pais que respondem na mesma moeda”, confessa. É ao adulto, diz, a quem compete ter maturidade e contenção emocional — “É isso que nos diferencia enquanto pais”.

“Há duas funções parentais: desenvolver nos miúdos um sentimento de pertença e dotá-los da capacidade de socialização e autonomização.”

Rute Agulhas, psicóloga clínica

“Ser amigo do filho significa que ambos estão no mesmo patamar. Isso não pode acontecer”, avisa de forma ainda mais radical Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense. A docente universitária no ISCTE-IUL, que já antes escreveu para o Observador, também diz que é fundamental existir “uma assimetria de poder”. É uma questão de autoridade, mas não de autoritarismo. Os filhos precisam obrigatoriamente de balizas — como quem diz limites –, que devem ser progressivamente flexibilizadas aquando da chegada da adolescência. Na opinião desta profissional, habituada que está a lidar com adolescentes, podem existir dois problemas associados à imposição de limites: “Ou as balizas desaparecem e os miúdos perdem-se, ou as balizas são muito rígidas e eles não têm espaço para se autonomizar. Vejo pais a tratar filhos de 15 anos como se
tivessem 10”.

“Há duas funções parentais: desenvolver nos miúdos um sentimento de pertença e dotá-los da capacidade de socialização e autonomização”, sintetiza Agulhas.

Pais e amigos: há uma linha que vos separa

Teresa Tavares não tem dúvidas. Sabe que as duas filhas que tem em casa não lhe contam tudo e não parece preocupar-se com isso. Ao Observador, assegura que elas contam apenas o que acham importante, não que isso a iniba de estar atenta ao comportamento de ambas. “Há coisas que são delas e das amigas. Quando têm um problema grave pedem ajuda. Até hoje tem funcionado assim”, conta a mulher de Santa Maria da Feira que não gosta de ver filhos a tratar os pais pelo nome próprio e mães que interferem na esfera privada das filhas. No outro lado da barricada, Cassandra já deu por si a ver as conversas das filhas no Facebook. Fê-lo por receio, por instinto de proteção. “Li coisas que elas acabaram por, mais tarde, me vir contar.”

“Eu nunca tive acesso aos emails e às redes sociais da minha filha e não quero ter. Acho que ela tem direito à intimidade dela. É uma questão básica de confiança”, diz Paulo que, em entrevista ao Observador, prefere não dar o último nome. “Vejo muito aquele tipo de discurso… quase como se os filhos fossem propriedade dos pais, que acham que têm o direito a ver tudo e a controlar tudo. Acho que sou uma minoria”, atira. Curiosamente, há sensivelmente um ano o pediatra Mário Cordeiro contava ao Observador, numa longa entrevista de vida, que é “gestor dos filhos” e não “dono”.

Sobre isto, Filipa Jardim da Silva defende que os pais devem ser um modelo e que, para tal, é preciso existir alguma distância — ao Observador, a psicóloga clínica diz conhecer pais que chegam a rivalizar com os amigos dos filhos. “É preciso perceber que não é suposto o meu filho adolescente contar-me tudo. Há uma linha de privacidade que é importante que todos tenhamos. Quando vejo pais a serem os conselheiros românticos dos filhos… pode ser problemático. É preciso ter noção do diálogo e das perguntas a fazer, que serão diferentes das de uma amiga.”

Ou seja, é natural e até recomendável que os pais questionem os filhos adolescentes sobre namoros, desde que respeitem as respostas que obtêm (mesmo que não venham recheadas de detalhes interessantes). “Se o filho ou a filha disse que não quer falar sobre isso, os pais têm aí uma oportunidade de mostrar respeito pela sua privacidade e ritmo próprio”, explica Filipa Jardim da Silva. A isso Rute Agulhas acrescenta que é fundamental os pais cultivarem uma comunicação clara com os filhos desde cedo, sem tabus à mistura, e que os temas da sexualidade devem ter abordados de uma forma tranquila. “Mais do que na sexualidade, a reflexão deve ser centrada nos afetos.

O limite que separa os pais de amigos é bem capaz de ser mais visível do que inicialmente esperado e há determinados comportamentos que os pais podem adotar em determinadas situações:

  • quando vão buscar um filho a casa de amigos, os pais devem evitar ser intrusivos e optar por não conversar com os filhos sobre algo mais sensível à frente desses seus amigos; o importante é não exagerar nos contactos, mas mostrar algum interesse e curiosidade, até porque o filho pode sentir-se invadido e até ansioso;
  • na relação dos pais com os amigos dos filhos é desejável que haja respeito com limites no tipo de partilhas feitas — no fim do dia, é preciso existir o adulto e o adolescente. “Perder este limite é perder a capacidade de definir regras, de conter, de proteger”, assegura Filipa Jardim da Silva;
  • e quanto às saídas à noite? “Regra geral, os filhos não querem sair à noite com os pais, antes estar com os amigos. Os pais devem negociar estas saídas e as horas de regresso de forma gradual”, diz Agulhas. “Se for possível nas primeiras saídas, há ganhos de serem os pais a irem buscar os filhos e de medirem bem as autorizações para prenoitar em casa de amigos numa primeira fase”, acrescenta Filipa Jardim.

“É preciso perceber que não é suposto o meu filho adolescente contar-me tudo. Há uma linha de privacidade que é importante que todos tenhamos. Quando vejo pais a serem os conselheiros românticos dos filhos… pode ser problemático. É preciso ter noção do diálogo e das perguntas a fazer, que serão diferentes das de uma amiga.”

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica

A ideia do respeito e contenção nas partilhas viaja nos dois sentidos: tal como se lê na página Parenting Science, há pesquisas que demonstram a existência de custos associados ao tratamento dos filhos enquanto confidentes — eles e elas podem não reagir bem a “confissões pessoais negativas”. Num estudo em particular, para o qual os investigadores entrevistaram filhas adolescentes de casais divorciados, descobriu-se que essas raparigas tinham uma maior probabilidade de sofrer de problemas psicológicos caso as mães lhes fizessem confissões detalhadas sobre as suas preocupações financeiras, problemas no trabalho ou sentimentos negativos sobre os ex-maridos.

“Há uma fronteira geracional que deve ser mantida e os pais não devem, por exemplo, fazer dos filhos confidentes dos seus problemas pessoais, conjugais ou com amigos. Os filhos precisam de pais com autoridade, que saibam exercer controlo e supervisão”, exemplifica Agulhas. Ambas as psicólogas defendem que os pais devem adequar as suas partilhas às faixas etárias de quem as ouve e que, de uma forma global, não devem falar da sua vida íntima e sexual, nem tão pouco de aspetos relativos à gestão financeira familiar.

Abandono não. É só sensação

Estava a jovem Maria no quinto ou no sexto ano quando começou a pedir ao pai que parasse o carro mais longe do recinto da escola, todas as manhãs. Paulo sentia a filha cada vez mais constrangida e assentiu com naturalidade.”Faz parte, não houve problema. Mas depois percebi que o que a envergonhava era uma coisa muito concreta: a Maria era a única menina da turma que ainda andava de cadeirinha”, recorda — Paulo fala ao telefone com o Observador mas, neste momento, conseguimos adivinhar-lhe o sorriso no rosto. A partir do momento em que deixou de haver cadeirinha, a resistência de Maria passou. Mas podia não ter passado e seria natural e normal se assim fosse.

“Por volta dos 10, 11 anos os miúdos já não querem que os pais os levem à porta da escola. Muito menos querem ‘o’ beijinho à frente das pessoas. Isso fá-los sentirem-se infantilizados”, explica Rute Agulhas. São situações como essas — que mais cedo ou mais tarde acontecem — que fazem alguns pais sentirem uma espécie de abandono. Há pais que ficam angustiados, mas, em última análise, isto mais não é do que a vontade dos filhos em mostrar autonomia. Caso os pais se sintam rejeitados, ao invés de encararem a situação como um sinal positivo, é possível que tal desencadeie nos filhos um conflito de lealdade. “Os miúdos ficam ambivalentes. Querem fazer aquilo que lhes faz sentir bem, mas não querem magoar os pais e podem entrar num processo de sofrimento. Cabe aos pais olhar para isto com naturalidade.”

“Os pais podem e devem ser amigos, mas não se podem resumir a esse papel. Os miúdos precisam de pais que, além de amigos, exerçam autoridade, definam limites.”

Rute Agulhas, psicóloga clínica

Dito isto, será que há pais muito dependentes dos filhos? Rute Agulhas responde que sim e argumenta que há pessoas que se resumem à função parental, que se esquecem dos outros papéis e que, à medida que o tempo passa, antecipam o ninho vazio. O importante, esclarece, é que as famílias se adaptem à medida que os filhos vão crescendo e que as regras sejam flexibilizadas. Mais, há diferentes formas de afeto que não passam necessariamente por expressar um “gosto de ti”: ter interesse nas áreas em que os filhos se movimentam é uma delas. “A adolescência em si é um desafio para as famílias. É sempre preciso redefinir papéis e fronteiras.”

Mas, afinal, até que ponto é que os pais podem ser amigos dos filhos? Filipa Jardim da Silva não é extremista. Diz que primeiro, e acima de tudo, está o papel de pai e mãe, só depois o de amigo. “Falo de ser amigo dentro daquilo que são as funções parentais. É isso que garante aos pais um papel único na vida dos filhos. Os pais esquecem-se disso com frequência.”

Rute Agulhas concorda: “Os pais podem e devem ser amigos, mas não se podem resumir a esse papel. Os miúdos precisam de pais que, além de amigos, exerçam autoridade, definam limites”. É ela quem nos dá a derradeira metáfora: imaginemos um papagaio de papel prestes a ser lançado ao vento; ou damos corda a mais e o papagaio voa para além do nosso controlo ou não damos corda e ele pura e simplesmente cai no chão. “A maior herança que um pai pode deixar a uma criança é uma vinculação segura, que a longo prazo vai deixá-la segura e confiante de si própria. Nenhum pai vai proteger o filhos de todos os erros.” Filipa Jardim da Silva remata: “Ser mãe e pai é algo eterno e
muito seguro. É uma questão de prioridades”.

Retirado de: http://observador.pt/especiais/ate-que-ponto-os-pais-devem-seramigos-dos-filhos/
Acedido em: 14-02-2018


*Nome fictício. Esta pessoa não quis ser identificada

“As famílias estão cada vez mais sozinhas, isoladas”

Rosário Farmhouse Preside há quatro meses à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens e a sua aposta é fomentar a parentalidade positiva

Rosário Farmhouse chegou à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens há quatro meses. Ao IN, afirmou que um dos seus objetivos é a coesão com as CPCI e passar uma boa imagem do “trabalho fantástico” que fazem. A outra grande aposta é capacitar as famílias para uma parentalidade positiva. Não quis falar do processo Supernanny, mas reconheceu que vivemos tempos complexos e que é difícil educar um jovem, até porque as famílias estão sozinhas. Acredita que a prioridade é ajudar os agregados para que as crianças possam sempre permanecer em meio natural de vida. Quando tal não é possível, acredita que as famílias de acolhimento são uma boa solução.

Um dos objetivos da Comissão Nacional é fazer formação na área da parentalidade positiva. Na prática o que é que isto significa?

Estamos a preparar uma candidatura ao Fundo Social Europeu que terá dois eixos. Por um lado, teremos um projeto que envolve as comissões alargadas, que fazem um diagnóstico e que desenham um plano de prevenção e promoção dos direitos das crianças da comunidade. Por outro lado, temos o eixo destinado às instituições de primeira linha, como escolas ou centros de saúde, e também às próprias famílias, com alguns projetos piloto, que terão lugar no Norte Centro e Alentejo.

Relativamente às famílias, a ideia é ensiná-las a educar os filhos para não terem de recorrer a programas como o Supernanny?

Eu admito que os tempos que estamos a atravessar são muito complexos em termos de educação dos filhos. As famílias precisam de ajuda
para perceberem como se lida com estes novos tempos, que trouxeram redes sociais e muitas solicitações que passam através das paredes dos quartos, sem que nos apercebamos. Há toda uma preocupação da Comissão Nacional e queremos fortalecer as famílias. Mas a abordagem a fazer será construída em conjunto com as próprias famílias.

Como é que está a correr o julgamento do processo Supernnany?

Ora aí está um processo do qual não quero falar. Ainda só passaram dois dias da audição de testemunhas. Vai continuar, portanto, aguardemos.

“A família alargada, as relações de vizinhança, tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu. Cada família está muito fechada no seu apartamento”

O que pode dizer de tudo isto que aconteceu a volta da Supemanny ?

Não se tinha visto até hoje esta expo­sição e ampliação das imagens nega­tivas das crianças através de um pro­grama de televisão, ou seja, uma ex­plora<;ao enorme de imagens das crianças em situações intimas. Mas penso que. face a esta exploração. fo­mos exemplares, porque nunca, em nenhum outro país, se viu sobre isto uma sociedade tao ativa. Não so as estruturas oficiais, como também ou­tras organizações, juntaram-se em prol desta causa contra o programa.

Há quem diga que todas estas orga­nizações se juntaram contra o pro­grama porque, no fundo, custa ver o resultado da educação exclusivamente permissiva que temos dado as crianças. Concorda?

Penso que os tempos não são sim­ples. Temos uma democracia que não e assim tao crescida, e possível que tenhamos caído no outro extremo. Talvez tenhamos passado de uma educação extremamente rígida, con­troladora, para um extremo onde po­derá valer tudo. Mas não quero gene­ralizar. No caso da Supernanny, as queixas que tivemos aqui foi de pes­soas que disseram que não reconhe­ciam os seus familiares naqueles comportamentos. Significa que, de algum modo, as crianças poderiam estar mais stressadas por causa das câmaras.

Mas ha ou não um problema de in­disciplina, por exemplo, nas nossas escolas?

Há casos. A diversidade e muita. Mas reconheço que os tempos são com­plexos, muito complexos. Provavel­mente, só agora reconhecemos as consequências da educação permis­siva, que não é generalizada. Pode ser difícil encontrar um meio termo, mas não quero generalizar. Reconheço, todavia, que e um problema com di­mensão e que temos muito trabalho pela frente.

Fenomenos como o baleia azul di­zem-nos o que?

É uma faceta destes tempos comple­xos. Estamos numa sociedade de so­lidão, as famílias estão cada vez mais sozinhas, isoladas. A família alarga­da, as relações de vizinhança. tudo aquilo que nos ajudava a educar a criança, a comunidade, desapareceu.

Cada familia esta muita fechada no seu apartamento, no seu quarto. Mui­tas vezes, os pais pensam que o filho por estar em casa esta seguro e, no entanto, através das novas tecnolo­gias pode es tar em perigo. O ritmo de trabalho dos pais, juntamente com a falta de dialogo, com a solidão, leva a que estas coisas sejam descobertas muito tarde.

Esta complexidade dos tempos vai ser abordada nas tais formações de parentalidade positiva?

A ideia e mesmo essa.

A ideia e capacitar a familia?

A prioridade e sempre trabalhar com a família, porque a prioridade e sem­pre manter os jovens em meio natu­ral de vida. Um dos dramas que en­frentamos hoje e quantidade de famílias onde encontramos problemas de ordem mental, das dependências e depressões.

Relativamente ao objetivo de fazer todos os esforços para manter as crianças em meio natural de vida, os técnicos tern a ideia clara de que isso e prioritário?

Penso que sim.

Pergunto porque ja houve histórias no sentido contrario, como o caso da Liliana Melo, a quern foram reti­rados os filhos, por exemplo.

As nossas formações servirão para isso também. Para sublinhar essa ideia.

Quando começam essas formações de parentalidade positiva?

No segundo semestre do ano.

O grupo de trabalho que estava no terreno para averiguar se são pre­cisas, ou não, mais famílias de aco­lhimento ja apresentou conclu­sões?

Não tenho conhecimento ainda das conclusões. Mas a Comissão Nacio­nal entende que e muito melhor uma criança ere seer numa família de aco­lhimento do que numa instituição.

Mesmo que a criança vá depois ser retirada aquela familia e passe por outra desvinculação?

Tudo isso tern de ser trabalhado com muito cuidado, certamente.

Há meios e recursos para contornar este problema de saude mental que se encontra em tantas famílias? Reconheço que quando o bolo não é muito grande, e difícil a distribuição. Mas tern havido um reforço aposta nesta área.

Além da parentalidade positiva, que outros objetivos estão na agen­da da nova presidente da Comissão Nacional?

São muitos objetivos, mas acima de tudo trazer uma maior coesão entre a comissão nacional e as comissões lo­cais. as CPCJ. E também passar uma mensagem mais positiva do seu tra­balho fantástico, trabalho que geral­mente e muito falado quando as coi­sas não correm bem, mas não e tao falado quando as coisas resultam.

Pode ajudar a construir essa ima­gem positiva alocar as CPCJ mais técnicos, uma vez que ainda temos comissões em que cada técnico tem em mãos dezenas de processos?

A forma como o nosso sistema de promoção e de proteção esta dese­nhado e muito inovadora, ate porque compromete toda a comunidade em torno das nossas crianças. Infeliz­mente, ainda não temos todos os in­tervenientes conscientes da impor­tância de alocarem recursos as comissões.

O que me está a dizer e que quem constitui as comissões alargadas (autarquias, segurança social, IPSS, etc) nem sempre disponibiliza os seus elementos a tempo inteiro, es­tando as CPCJ com pessoas a tempo parcial…

Muitas vezes, porque também não tem recursos, acabam por disponibi­lizar pessoas que não tem muito tem­po, ou que o perfil não é o mais ade­quado. Embora, neste momento, creio que se trate mais de uma ques­tão de tempo, o que faz com que mui­tos estejam muito absorvidos por muitos processos.

Bastaria que algumas das pessoas que estão nas CPCJ a tempo parcial passassem a estar a tempo inteiro ou, de facto, são necessários técni­cos novos?

Se cada um conseguisse cumprir com os tempos de afetação que estão previstos, penso que conseguiríamos dar resposta. Naturalmente, há co­missões com volumes processuais elevados.

Portanto, a Comissão Nacional não pretende alocar mais gente?

Temos noção de que são precisos al­guns reforços e estamos neste mo­mento a fazer uma avaliação no ter­reno, perceber quais são as CPCI mais necessitadas. Temos de estar atentos as que tem maior volume processual.

Há quem defenda a profissionaliza­ção das comissões para evitar-se esta eterna questão do técnico que dá um pouco de tempo a CPCJ, se a entidade para a qual trabalha permitir …

Se em vez de termos estes par­ceiros todos (au­tarquias, segu­rança social, IPSS, etc.) nas comis­sões alargadas, que depois disponi­bilizam os seus elementos para as co­missões, profissionalizassemos as CPCJ, estaríamos a desvirtuar a ideia deste sistema que compromete toda a comunidade. Mas tem de haver meios, respostas, e reconheço que há fragilidades. Acredito. porém, que o modelo é o indicado.

Já fez um périplo pelas CPCJ em todo o território?

Fiz apenas encontros com as nossas equipas regionais, que agora sao cin­co= Norte, Centro, LSS – Lisboa, San­tarem e Setubal, Alentejo e Algarve. Ate aqui, estas ultimas tres eram so uma.

O que e o projeto “selo protetor”?

É um projeto recente, lançado em fe­vereiro, que pretende reconhecer, através de um selo de qualidade, as entidades que se assumam como protetoras das crianças. As candida­turas decorrem até 31 de março. Se as instituições cumprirem uma serie de requisitos, receberão um selo.

Crónica no DN Life – “Pais Uber” Dra. Rute Agulhas (psicóloga e terapeuta familiar)

À porta das escolas, das actividades extra-curriculares, em restaurantes ou casa de amigos, entre tantos outros locais, assistimos a uma realidade inegável. Jovens sem autonomia, levados e trazidos pelos pais, seja de dia ou de noite. Jovens sem capacidade ou disponibilidade para utilizar transportes públicos ou andar a pé.

Pais que vivem e organizam as suas agendas em função destes horários.
Pais que não almoçam porque têm de levar e trazer os filhos, entre a escola e as actividades.

Pais que se levantam a meio da noite para ir buscar os filhos após as suas saídas.
Diria que são os modernos “Pais Uber”. Vejamos as consequências que este comportamento parental pode ter no processo de desenvolvimento dos filhos.

A família desempenha duas importantes funções para a criança. A chamada função interna, de estabelecimento de vínculos afectivos e sentimentos de pertença, a par da função externa, que permite e facilita a socialização e integração social. É desejável um equilíbrio entre estas duas funções, facilitando um desenvolvimento mais adaptativo e harmonioso.

Uma criança que cresce num contexto afectuoso e seguro, ao mesmo tempo que lhe permite e incentiva a exploração ambiental é, seguramente, uma criança com mais recursos internos e menor probabilidade em apresentar sintomatologia. Torna-se mais adaptada, com melhor auto-estima, mais segura e confiante na forma como explora o seu meio, como interage e socializa.

Perante isto, diríamos que os ‘Pais Uber’ comprometem, de alguma forma, ambas as funções. Sempre presentes e hipervigilantes, demasiado protectores e, por vezes, mesmo claustrofóbicos, acabam por poder transmitir à criança, ainda que de forma não intencional, que o mundo é perigoso e ameaçador. E crescer com esta percepção do mundo tem consequências significativas no desenvolvimento da criança, com aumento de ansiedade e desconfiança relacional.

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Fonte: DN Life

Convocatória Assembleia Geral

No Cumprimento do disposto no art.º 29º dos estatutos da ABRIGO – Associação Portuguesa de Apoio à Criança, convoco para o dia 14 de Novembro de 2018, pelas 20.30 horas,, a Assembleia Geral desta Associação a qual terá lugar no “Tryp Montijo Parque Hotel”, sito em Montijo, com a seguinte ordem de trabalhos:

Ponto 1 – Informações;

Ponto 2 – Orçamento e Plano de Actividades para o exercício de 2019;

Ponto 3 – Outros Assuntos de Interesse Geral para a Associação.

Se a Assembleia Geral não puder funcionar à hora marcada por falta de quórum suficiente, reunirá (nos termos do art.º 31º, nº1 dos Estatutos), uma hora depois com qualquer número de associados presentes e/ou representados.